sábado, 30 de março de 2013

BioShock Infinite (PC)



Ao contrário das anteriores entradas de BioShock, Infinite troca as profundezas de Rapture, a cidade distópica construída sob as águas, pelas alturas de Columbia, a cidade distópica construída acima das nuvens. Dito desta forma parece não mudar muito, mas transforma por completo a aparência visual, ainda que em termos de liberdade de movimento continue a imperar a linearidade - a cidade aberta só o é graficamente. De resto, a atmosfera opressiva, as cores lúgubres, a escassa iluminação de Rapture são substituídas em BioShock Infinite pela palete de cores diametralmente oposta, a iluminação forte, a decoração feérica. Não obstante ser uma cidade mais alegre e mais agradável aos olhos - excepto quando, em certas cenas,  o colorido se torna excessivo - Columbia não é menos distópica que Rapture. Aparentemente o universo de BioShock é inspirado em Ayn Rand, com alguns elementos retirados de 1984, de George Orwell. A segunda parte desta afirmação posso corroborar inteiramente, especialmente no que diz respeito à tecnologia e à sensação de opressão. Quanto ao Objectivismo de Ayn Rand é coisa que me escapa e não tenho o mínimo interesse em investigar só para opinar sobre a trilogia BioShock. Como não faço ideia, vou acreditar que têm razão...



E o jogo? Bom, o jogo é um shooter e eu, enquanto nabo absoluto na manipulação de avatars virtuais cujo objectivo principal é eliminar a maioria das coisas que se movem, escolhi de imediato e opção mais simples para tentar passar dos primeiros minutos de jogo. Consegui e descobri que há outras coisas em comum com os choques biológicos mais antigos, por exemplo a utilização de poderes sobrenaturais, a par do normal arsenal bélico. Não foi grande surpresa - nem isto, nem nada do que disse antes - uma vez que tem havido um bombardeamento sucessivo de vídeos do jogo da 2K vários meses antes do lançamento oficial. Pequenos pormenores, porém, constituíram surpresa. Um deles, os vagos paralelos que podem ser estabelecidos com um dos grandes êxitos do ano passado, Dishonored. Não se trata aqui de plágio de qualquer das partes, obviamente, apenas inspirações comuns, até porque enquanto BioShock Infinite mantém-se um shooter com alguns (muito vagos) pormenores de RPG, Dishonored é um jogo stealth/ action, na senda de Thief, com o qual terá muito mais pontos em comum do que com esta produção da 2K. No entanto, como saíram para o mercado com uma diferença de tempo relativamente curta - e com o lançamento eminente do próximo DLC de Dishonored, The Knife of Dunwall - é natural que as comparações tenham surgido. Por isso e porque, como Dunwall, também Columbia é uma cidade "viva", com movimento nas ruas, personagens que ali estão apenas para dar colorido, pedaços de informação dispersos sobre o universo de jogo - em BioShock predominam, como nos dois antecessores, os audio logs.



As diferenças terminam aí. Dishonored tem opções de diálogo, ainda que poucas, múltiplas maneiras de resolver problemas - coisa que em shooters não é suposto acontecer - e um universo, na opinião de quem escreve estas linhas, muito mais interessante do que o de BioShock Infinite. Mas, repete-se o já dito, BioShock Infinite é um FPS, logo segue as regras do seu género e só lhe pode exigir o que ao seu género pertence. E enquanto first person shooter BioShock Infinite vai bastante mais além do que os dois anteriores. Não apenas devido aos gráficos, naturalmente muito superiores, mas também a narrativa, a interpretação dos actores que dão voz aos personagens e, sobretudo, Columbia. É verdade que o ar soturno das duas primeiras entradas no franchise poderia atribuir ao jogo um ambiente mais tétrico, quase de survival horror. Mas, em simultâneo, tornaram-nos um tanto repetitivos e monótonos. BioShock Infinite não escapa à dose de monotonia obrigatória de qualquer FPS (isto dito porque alguém que já afirmou não apreciar shooters, note-se), mas Columbia é aquilo que ultimamente as empresas de jogos de vídeo tomaram o hábito de rotular "a living breathing world".



De facto, aqui sente-se que "estamos" numa cidade e não nas ruínas de algo que já foi uma cidade, como era Rapture. Melhor ou pior? Na minha opinião, bastante melhor, mas é apenas uma opinião. De salientar apenas que é interessante o suficiente para suscitar a atenção de um jogador de RPGs que raramente perde tempo a disparar em tudo o que mexe. Quanto ao enredo, e muito resumidamente, o protagonista é Booker DeWitt, ex-agente da Pinkerton National Detective Agency que, para pagar as suas dívidas, vê-se forçado a aceitar um trabalho estranho: viajar até Columbia, uma espécie de Cloud City em versão steampunk, para salvar a enigmática jovem Elizabeth de um culto de maníacos seguidores do Profeta. Columbia é, como já antes fora mencionado, uma distopia que retoma o pior do final do século XIX, do racismo, ao sexismo, passando pela eugenia. O cenário pouco politicamente correcto - agradável de ver um videojogo atrever-se a ultrapassar esta linha por motivos narrativos - é também pouco saudável para Booker que, assim, tem contra ele uma cidade inteira de cidadãos raivosamente fiéis ao seu ditador.

Miguel Ângelo Ribeiro

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Prisioneiro do Céu


O terceiro volume do cemitério dos livros esquecidos de Carlos Ruiz Zafón tem como protagonista Ramon Fermín Torres o fiel empregado da livraria Sempere & Filho numa história com um toque de Conde de Monte Cristo. Fermín prepara-se para deixar para trás os dias dias desgarrados e casar, mas uma visita  misteriosa à livraria desperta fantasmas do passado. Fermín conta com a ajuda do amigo  Daniel Sempere, o protagonista de A Sombra do Vento, mas os segredos de Fermín revelam-no mais próximo dos Sempere do que Daniel alguma vez pensou.
O Prisioneiro do céu é uma linha que entrelaça ainda mais o enredo dos dois livros anteriores e parece ser esse o objectivo principal da obra que não traz realmente nada de novo ao universo do cemitério dos livros esquecidos. Não caí no exagero fantasioso do Jogo do Anjo e também não tem o charme soturno da Sombra do Vento. Talvez lhe falte um escritor maldito para outra dimensão á trama, Firmín é uma figura interessante, mas como protagonista não tem o impacto de  Julián Carax e David Martín. Quem chegar a este livro sem ter lidos os anteriores vai sentir falta de algo. Resta acrescentar que como sempre nos livros de Zafón Barcelona, cidade mágica, maldita e encantada, continua a ser a protagonista principal.

Sílvia Clemente

quinta-feira, 28 de março de 2013

Vigaristas à Vista (Identity Thief)



Identity Thief, com o lamentável título português de Vigaristas à Vista, poderia ser uma comédia absolutamente execrável do tipo American Pie 5: Corrida de Nudistas - o título português ajuda muito a roubar-lhe a identidade e a réstia de dignidade. Poderia mas não é, porque conta com o protagonismo de Jason Bateman (que, para além de ser irmão de Justine Bateman, é o irrepreensível Michael Bluth, de Arrested Development - De Mal a Pior) e Melissa McCarthy (a Sookie de Gilmore Girls). A história (que faz lembrar, muito vagamente Antes Só que Mal Acompanhado, um clássico da comédia ligeira com Steve Martin e John Candy) não ajuda nada os dois actores. Sandy Patterson (Jason Bateman) recebe um telefonema de uma suposta funcionária do seu banco que o avisa que acabou de ser vítima de uma tentativa de furto de identidade. Cai no logro da vigarista profissional Diana (Melissa McCarthy) e fornece-lhe telefonicamente todos os dados que ela precisa para, de facto, executar um golpe de furto de identidade. Com os cartões de crédito de Sandy, Diana cede a todas as extravagâncias e acaba por envolver-se em problemas com a Polícia. Mais tarde, já depois de se ter apercebido de despesas enormes que não podem ser suas, Sandy é contactado pela Polícia para apresentar-se em tribunal. Desesperado, convence os detectives a deixá-lo procurar a pessoa que lhe roubou e praticamente lhe destruiu a vida, para a entregar à justiça. Aqui começa um road movie cómico, em que se sucedem os típicos gags do género, sobretudo a partir do momento em que Sandy encontra Diana e a consegue persuadir a acompanhá-lo para resolver a questão. Nada de novo por aqui. O humor é banal, a comédia de situação nada original. Salva-se a dupla de protagonistas que confere algum fôlego à película de Seth Gordon.

***** (5/10)

Terra Prometida (Promissed Land)



Matt Damon e Frances McDormand (respectivamente Steve Butler e Sue Thomason) são dois funcionários de uma empresa enviados a uma pequena localidade rural no interior dos Estados Unidos para negociar os direitos de exploração de gás natural, um recurso em que aquela região é rica. E aparentemente é a única riqueza daquela cidade, cujos habitantes foram severamente afectados pela crise económica. Mas o que parecia um trabalho simples - afinal, se a terra é pobre, o mais provável seria agarrarem de imediato esta proposta que trará mais emprego e desenvolvimento à região - acaba por não ser. A chegada de um ambientalista, Dustin Noble (John Krasinski), o qual, alegadamente, representa uma organização que alerta para os riscos da exploração do gás natural, faz com que os habitantes pensem duas vezes antes de aceitar a proposta. Notícias sobre acidentes que ocorreram em outras cidades onde prospecções similares foram tentadas circulam pela localidade e Steve Butler, ele próprio oriundo de um cidade pequena, começa a ambientar-se e a criar amizade com alguns dos habitantes e coloca em questão o seu papel e os hipotéticos benefícios daquele negócio.
Gus Van Sant, realizador de O Bom Rebelde, Elephant e Milk, está habituado a tocar em temas polémicos nos seus filmes, desde os massacres em escolas secundárias, ao activismo político do homossexual Harvey Milk, passando pela recomposição frame a frame do clássico Psico, de Alfred Hitchcock. Bom, enfim, este último não debate um tema polémico, é apenas um pouco parvo... Desta vez é a facilidade com que as corporações põem e dispõem das pessoas, das comunidades, da utilização de recursos naturais e dos prováveis riscos que isso possa ter, em prol do lucro. E é também uma visão político-económica sobre a exploração dos menos afortunados. Aqui, ao contrário da maioria dos casos no mundo real, as vozes que se levantam contra o projecto acabam por fazer com um dos funcionários da corporação mude de ideias, ainda que tal não constitua um golpe final nos intentos da empresa. Matt Damon está bem no seu papel (o que muitas vezes não acontece) e Frances McDormand é sempre uma aposta segura, tal como o veterano Hal Holbrook, num dos papéis secundários. A parte positiva está arrumada. Agora chegamos à parte negativa. Um drama com laivos políticos, ambientado na América profunda empobrecida e explorada pela "evil corporation" poderá não ser o filme ideal para o público português. Não fosse o facto da crise ser mundial e temáticas como esta terem começado a invadir a Europa através da comunicação social e documentários virais e ainda seria menos. Hoje em dia talvez já seja possível uma maior identificação com os problemas daquela comunidade, tipicamente norte-americana. Ainda assim, é um filme lento, que vive sobretudo dos dramas pessoais que acarreta a concretização do projecto de exploração de gás. Recomendável a quem gostou de Milk e aprecia o estilo de Gus Van Sant.


****** (6/10)

Gangsters à Moda Antiga (Stand Up Guys)



Preliminares: Segundo informa o imdb, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, deveria estrear hoje, 28 de Março de 2013, nas salas portuguesas, um pequeno grande filme chamado Stand Up Guys, traduzido para Gangsters à Moda Antiga. No entanto, após pesquisa, verifico que o filme não está em sala alguma. Será engano do imdb? Heresia! Será que já estreou discretamente há meses e não dei por ele? É possível, visto ser uma produção de 2012 que, nos EUA, esteve em cartaz no início deste ano. Não sei, vou ficar atento para confirmar, mas como ainda não falei de um filme realmente bom desde que abri a porta da Sala Vermelha, parece-me um momento excelente para opinar sobre este.
Posto isto, vamos ao filme... Stand Up Guys gira em torno de três gangsters idosos, um deles reformado, o outro retirado à força pois está preso há quase três décadas, um deles ainda no activo. Mas mais do que isto é uma história sobre laços de amizade que perduram, uma narrativa comovente, mas não lamechas, sobre a honra entre ladrões, redenção, valores antiquados e como a terceira idade nem sempre é sinónimo de estar sentado com uma manta sobre as pernas a assistir a maus programas na TV. Val (Al Pacino) saiu da prisão 28 anos após ter sido o único do seu gangue a ser capturado pela Polícia, durante um golpe que correu mal. Val manteve o silêncio e não delatou os cúmplices. À sua espera, à porta da penitenciária, está Doc (Christopher Walken), um dos gangsters que se safou à condenação, graças ao seu velho amigo. Mas o papel de Doc é dúbio, pois ele foi contratado por Claphands (Mark Margolis), o mentor do antigo gangue, para eliminar Val. Claphands respeita o silêncio de Val, mas quer vingar a morte do filho, pela qual culpa todo o grupo, sobretudo o personagem interpretado por Pacino. Doc não quer matar Val, naturalmente. Embora tenham passado quase 30 anos ele era o seu melhor amigo. E a lealdade não tem preço. Mas a vida também não o tem e, caso não cumpra o contrato, Claphands tratará de eliminar ambos. Perante a hesitação de Doc, é-lhe dado um prazo cuja limite termina às dez horas do dia seguinte à libertação de Val. Mas antes de mais, o que o homem acabado de sair da prisão quer é divertir-se. Reunir o antigo grupo, do qual sobreviveu também o motorista Hirsch (Alan Arkin), para uma noite de álcool, drogas, sexo e, eventualmente, um último golpe. A tensão é evidente e, mesmo antes de Doc revelar o seu plano, Val desconfia que Claphands planeia matá-lo. Isso não impede, porém, que Val se queira divertir, apesar dos prudentes conselhos de Doc. Hirsch, cuja vida tomou um rumo mais calmo, a princípio está relutante em acompanhar os dois amigos, mas acaba por viver uma noite inesquecível e revelar uma vigorosa performance sexual que espanta as prostitutas do bordel que frequentavam enquanto jovens (agora gerido pela filha da anterior "madame"). Sucedem-se os momentos francamente hilariantes enquanto o trio de veteranos do crime mostra ao mundo que já não se fazem gangsters como antigamente. Embora o argumento não dê a Al Pacino grande oportunidade para os seus clássicos monólogos "pacínicos", o personagem está muito bem construído e é feito à medida do actor. Ele veste-o com elegância e notória facilidade. Christopher Walken... Bom, Christopher Walken é Christopher Walken num papel de Christopher Walken - um pouco mais duro e sinistro do que em Sete Psicopatas, mas numa linha similar. Se o seu personagem não domina o filme é porque está lá Pacino, mas dividem o protagonismo de forma exemplar. Não há atropelos possíveis, os dois actores são tão ou mais veteranos do que os seus personagens. Alan Arkin, por seu turno, está encarregue do lado mais cómico da película, embora acabe por ser também vítima de alguns dos momentos dramáticos. Encarrega-se com excelência do condutor de fugas e completa um trio brilhante. Quer isto dizer que é um filme com todos os ingredientes que se pode pedir: Acção, humor, drama e um tiroteio final - de salientar que a cena final, que deixa a conclusão em aberto, é um tratado de bom cinema, que ficará para a história. É verdade que filmes sobre veteranos do crime que se juntam, muitos anos depois, para golpes finais é um cliché  da Sétima Arte, mas este é um cliché com Al Pacino, Christopher Walken e Alan Arkin - e também Julianna Margulies, Vanessa Ferlito, Craig Sheffer e Mark Margolis em papéis secundários - realizado por Fisher Steven, que sendo mais conhecido enquanto actor, não é propriamente um estreante. Pode não parecer, mas provavelmente será um dos melhores filmes do ano, pelo menos para quem aprecia filmes simples e com coração, tripas e alma, que tocam temas duros e dramáticos sem pieguice. E este tem isso tudo e mais alguma coisa.

******** (8/10)

EDIT: Aparentemente adiado para 6 de Junho, agora com o título Gangsters da Velha Guarda. Mas até lá ainda mudam mais alguma coisa, por isso não é de fiar.

Miguel Ângelo Ribeiro

Fables: adaptação do comic a jogo de computador

Depois da adaptação do Walking Dead (a boa, da Telltale Games não o reles aproveitamento oportunista do sucesso da série de TV que a Activision lançou recentemente) isto pode ser interessante. Mesmo muito interessante.

Dark (PC)

Não será nada que se compare ao Vampire the Masquerade: Bloodlines, mas há sempre lugar para jogos com vampiros (excepto se forem baseados no Twilight). Aqui fica o trailer.

quarta-feira, 27 de março de 2013

The Citadel - Mass Effect 3 (PC)



Um ano depois do lançamento do terceiro capitulo da trilogia Mass Effect saiu este The Citadel, o DLC final. Muita água já correu sob esta ponte, a maior parte dela estagnada. O final do Mass Effect 3 deve ter sido odiado com a mesma intensidade com que o resto da saga foi adorado, talvez mais ainda. É caso para perguntar Bioware porquê agora? Ou porquê só agora? Porque esta aventura na Citadel redime, ou quase que redime o Mass Effect 3. Em The Citadel, um dos melhores DLC dos três jogos, Shepard e a equipa desfrutam, ou tentam, de uma merecida "shore leave" impulsionada por Anderson, que também coloca à nossa disposição o seu apartamento. Temos assim um apartamento de luxo para aproveitar e partilhar com a equipa e uma nova zona da Citadel para explorar. Porque demasiado ocupado a salvar o universo, Shepard não tinha em tantos anos tinha reparado na existência de um casino, uma arcade, uma arena de simulação de combate e um trendy restaurante de sushi. As férias são, obviamente, interrompidas logo no inicio por uma figura sinistra com um plano para roubar a identidade de Shepard, felizmente podemos contar com a ajuda de toda a equipa e mais um especial guest star de Wrex para ajudar. Numa cena digna de qualquer filme de classe B, e para surpresa de todos, o inimigo revela-se o "Evil Shepard", um segundo clone feito pela Cerebrus para partes suplentes, que tem a sua própria Dark Miranda como assistente. The Citadel é um expansão sobretudo humorística, com uma boa dose de nostalgia e um ritmo que faz lembrar o Oceans's Eleven. É no fundo aquilo que a Bioware é especialista e que fez o sucesso da trilogia. Uma excelente dose de iterações entre o jogador e os vários NPCs, abrindo a hipótese de novos momentos de interacção com estes e culminado numa festa em que nos podemos despedir (de forma não oficial - e muito póstuma - da equipa). The Citadel é o epilogo merecido ara encerrar o capítulo Mass Effect, contudo chega demasiado tarde. Quem já conhece o final do jogo não consegue deixar de ouvir as trombetas do Apocalipse.

Sílvia Clemente


Trecho de um dos melhores diálogos da literatura portuguesa:
"O subchefe da Polícia apontou, detrás da secretária, o cano da esferográfica.
«Profissão?»
As duas mulheres trocaram olhares, a mais velha e gorda deu um passo em frente como se quisesse ir entregar a resposta em mão. Entregou, baixinho:
«Putas...»
O subchefe da Polícia fez uma careta de desagrado, abanou tristemente a cabeça e censurou:
«Então isso diz-se assim?»
A mulher, a mais velha e gorda, não compreendeu que diabo queria o subchefe da Polícia, ficou calada, a pensar, pensou que talvez não tivesse sido respeitosa o suficiente. Emendou:
«Putas, senhor subchefe"."
Mário Zambujal, Crónicas dos Bons Malandros
E pronto, é isto. Só porque sim.

Comédia Explícita - Movie 43 (Movie 43)



Este já chega tarde à Red Room, porém ainda está em exibição em um ou dois cinemas, por isso justifica-se a menção. Coisas importantes a referir sobre Movie 43 (vou ignorar o prefixo que decidiram colar-lhe por cá): não é realmente um filme, mas uma colecção de sketches sem nenhuma relação entre eles, excepto o humor polémico, na maioria dos casos grosseiro e, ocasionalmente, escatológico. Um dos realizadores é Peter Farrelly, por isso não é necessário dizer mais nada. Mas há outros, como Brett Ratner e Griffin Dunne. O elenco é mais interessante e conta com actores como Hugh Jackman, Elizabeth Banks, Naomi Watts, Halle Berry e muitos outros. Apesar do mau gosto ser permanente, raramente toca os níveis de grosseria de um filme dos irmãos Farrelly. Na maioria dos casos simplesmente manda às urtigas o politicamente correcto. E como é raro apareceram filmes de sketches de produção norte-americana, ainda menos com um elenco que inclui actores populares, faz sentido falar sobre ele. Infelizmente não é um Amazon Women on the Moon, mas talvez valha a pena esperar para ver em casa. Nem que seja numa emissão televisiva. Um dia. No Canal Hollwood. Nem que seja pelos testículos do Hugh Jackman.

***** (5/10)

Miguel Ângelo Ribeiro

terça-feira, 26 de março de 2013

Em Parte Incerta



É difícil fazer uma critica a este livro sem revelar demasiado, resumidamente Gone Girl relata o súbito desaparecimento de Amy Dunne no dia do seu quinto aniversário de casamento. O marido Nick, um tipo farto da vida que leva (casamento incluído) é confrontado com o desaparecimento da mulher, com o renascer da sua paixão por esta, ao mesmo tempo que começa a ser o alvo das suspeitas da polícia. 
A narrativa de Nick é intercalada com trechos do diário de Amy, que nos dão a conhecer toda a história do seu romance com Nick bem como a própria Amy bonita, inteligente, dócil em suma perfeita.
O leitor começa a perceber que as duas versões demasiado diferentes para serem conciliáveis... Em Gone Girl nada é o que parece ser. Os dois primeiros livros de Gillian Flynn ( Sharp Objects e Dark places) eram thrillers arrepiantes sobre personagens danificadas em circunstâncias perturbadoras. A história e os protagonistas de Gone Girl são à partida menos violentos e mórbidos, mas revelam-se muito piores. Trata-se de um thriller sobre relações conjugais. Recomendado para quem tem noções demasiado idealizadas sobre as mesmas, ou excessivas exigências de perfeição sobre a putativa cara metade como um aviso. Recomenda-se também aos cínicos e simplesmente aos fãs do género. Não sendo o melhor livro da autora tem todos os elementos necessários para ser um sucesso de vendas.

Sílvia Clemente

Efeitos Secundários (Side Effects)




Steven Soderbergh tem o mérito (ou será um defeito?) de não ser facilmente rotulado. É verdade que os seus filmes podem perfeitamente ser encaixados em embalagens mais ou menos estanques, desde o heist film extremamente "cool" da trilogia Ocean, aos thrillers em larga escala, como Tráfico e Contágio. Pelo caminho ficam alguns que não cabem nos caixotes, como o remake - que não é realmente remake - do clássico de Andrey Tarkovskiy, Solaris, e ainda Kafka. Efeitos Secundários é também um thriller, mas pessoal e intimista, embora não tanto como o foi O Falcão Inglês, um filme que gira em torno de um mistério, mas onde a vingança eminente pairava sempre. Jude Law - um dos protagonistas de Contágio - é Jonathan Banks, um psiquiatra inglês a viver nos Estados Unidos que, por aparente coincidência, está de serviço no hospital na noite em que Emily Taylor (Rooney Mara, livre de piercings, tatuagens e outros adornos) tenta suicidar-se. Após um breve diálogo entre ambos, Emily convence o psiquiatra que ela não deseja realmente morrer, apenas está a passar por uma fase complicada após a libertação do marido Martin (Channing Tatum, que começa a ser presença obrigatória nos filmes de Soderbergh), após ter cumprido pena por um crime de colarinho branco. Banks aceita dar alta a Emily, mas fá-la prometer que irá consultá-lo semanalmente.
A partir daqui assistimos, por um lado ao desagregar do casamento de Emily e Martin, ela afectada pela depressão, ele preocupado em recuperar o estilo de vida a que ambos estavam habituados, por outro, às consultas da mulher perturbada com Banks. Rapidamente os medicamentos receitados por Banks provocam os efeitos secundários do título, o que acelera o afastamento de Emily do marido, e força a que vários tipos de tratamento sejam testados, até alcançar o efeito desejado. Quando tudo parece estar encaminhado, uma reviravolta faz com que a segunda parte do filme passe de drama psiquiátrico a policial com laivos de teoria da conspiração, em parte graças à enigmática anterior psiquiatra de Emily, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones, de regresso aos papéis de relevo). Levanta-se o fantasma das ligações perigosas entre médicos e empresas farmacêuticas, revela-se que a postura de menina frágil da personagem de Rooney Mara esconde uma teia sórdida de mentiras e relações motivadas por interesses monetários, tudo isto a agravar a espiral de decadência que atinge a vida do psiquiatra britânico e ameaça a estabilidade da sua vida familiar e profissional. Aqui é o talento de Rooney Mara que impera, vivendo a duplicidade de carácter que marca Emily Taylor, enquanto Jude Law se encarrega de uma obsessiva investigação, a qual visa, ao mesmo tempo, provar a verdade por trás das mentiras, mas também a vingança de quem o tem ofendido nos 60 minutos anteriores. Os momentos tensos, as reviravoltas e surpresas, as interpretações seguras e a realização sempre profissional de Soderbergh criam um thriller dramático que supera a maioria dos recentes trabalhos do realizador norte-americano.

******* (7/10)

Miguel Ângelo Ribeiro

Sete Psicopatas (Seven Psychopaths)


Colin Farrell, Sam Rockwell, Christopher Walken, Woody Harrelson e Tom Waits num filme realizado e escrito por Martin McDonagh, o mesmo de Em Bruges. Só pode ser perfeito, não é? Quase, não fosse o argumento desconstruir (a um nível excessivo) o cinema de acção, enquanto narra uma história tão intrincada, quanto bizarra. Collin Farrell é Marty, um argumentista que atravessa uma grave crise de inspiração, pressionado para escrever o seu próximo enredo, Sete Psicopatas. A ajuda do seu amigo Billy (Sam Rockwell), um actor desempregado que sobrevive das gratificações oferecidas por donos de cães desaparecidos - que ele próprio rapta -, acaba por complicar ainda mais a vida do argumentista, ao envolvê-lo com um grupo de psicopatas reais, com o intuito de ajudar o Marty a levar avante o projecto. Os personagens de Marty confundem-se com as figuras reais dos criminosos (Christopher Walken e Tom Waits são dois deles) e se tal não bastasse para complicar a vida de um argumentista de Hollywood, a vida de todos eles está em risco devido ao amor desconcertante do perigoso gangster Charlie (Woody Harrelson) por um shi tzu raptado por Billy. 
A história é já por si estranha, mas mais estranha se torna quando o meta-enredo do filme dentro do filme começa a tomar conta do argumento. Por vezes teme-se que o rumo nonsense esteja prestes a descarrilar esta comédia de acção, mas tal nunca chega a acontecer, sobretudo graças ao talento de Walken, Waits e Harrelson. Restam algumas dúvidas sobre até que ponto McDonagh foi tão seguro na realização quanto no seu filme de estreia, Em Bruges, também ele uma sátira ao género da acção, mas com uma premissa mais simples, sem exageros rocambolescos. O filme é, porém, uma excelente comédia de acção especialmente indicada para quem não faz questão que um argumento seja linear e coerente. Surgiram as inevitáveis comparações entre Sete Psicopatas e alguns filmes de Quentin Tarantino. Inevitáveis porque desde que a crítica internacional decidiu que QT é um génio e não apenas um one-trick pony (vá lá, um two-trick pony) todos os filmes de acção particularmente irrealistas, com personagens violentos, gangsters e assassinos profissionais com personalidades bizarras, fazem lembrar Pulp Fiction e Cães Danados. Há muito pouco em comum entre eles e, apesar de Pulp Fiction e Cães Danados serem os pontos altos na carreira de Tarantino, tanto um como outro são pastiches de enredos, personagens e ambientes plagiados a películas existentes, de sub-géneros menores, como a blaxploitation e o grindhouse, enquanto o trabalho de McDonagh é original. Ou, pelo menos, tão original quanto um filme de acção pode ser em 2013. Em resumo, Sete Psicopatas não é, definitivamente, para todos os gostos e o título pode até induzir alguns em erro, mas é uma visão refrescante sobre o saturado cinema de acção hollywoodesco.

******* (7/10)

Miguel Ângelo Ribeiro

segunda-feira, 25 de março de 2013

The Walking Dead: Survival Instinct (PC)



Infelizmente não há como discordar da crítica "linkada". Nem desta, nem da maioria das outras. Variam muito pouco, pelo menos no ponto principal: a adaptação a jogo de computador da série The Walking Dead é bastante infeliz. Enquanto fã da série gostaria de apontar pontos positivos e, ainda que não seja o pior jogo com zombies - a maioria dos jogos que envolvem zombies são francamente maus - isso não é dizer muito. Fica a consolação de existir o outro jogo inspirado no universo The Walking Dead, a produção de aventura da Telltale Games, nesse caso baseada sobretudo nos comics, mais do que na série de TV. Esse sim, foi um grande acontecimento no mundo dos videojogos. Aguarda-se nova incursão da Telltale Games no mundo dos mortos que caminham, porque o instinto de sobrevivência não chega para evitar que os "walkers" dilacerem à dentada este lançamento da Activision, que venderá como a maioria das adaptações acabam por vender, porque sim...

Miguel Ângelo Ribeiro




O Inverno de Paul Auster



Paul Auster não será porventura um escritor para qualquer um e este seu Diário de Inverno em particular é um livro para fãs. Depois da elegia ao pai em The Invention of Solitude é a vez de uma biografia, segundo o próprio, centrada na memória da mãe. Claro que os detalhes sobre a figura da mãe do escritor são apenas um pormenor num conjunto de colecção de memórias intimista. Episódios e personagens que ilustram o homem por detrás da obra e deslindam um pouco do universo Austeriano, simultaneamente simples e complexo, banal e extraordinário quase sempre mesmerizante. Auster enumera casas e países em que viveu (incluindo Portugal, pormenor que não resisto a mencionar tendo em conta a popularidade do autor no nosso país), parceiras sexuais e afectivas, doenças e obsessões (a título pessoal sou  obrigada a considerar o basebol uma obsessão). Alguns paralelos entre a vida de Auster e a sua ficção são óbvios. Por exemplo o episódio da perda da virgindade, praticamente decalcado na Trilogia de Nova Iorque. O período passado em França durante a juventude ecoam em vários livros e a descrição da fase em que o escritor sofreu de ataques de pânico remetem para o narrador de Man in the Dark.
Velhos excêntricos sempre estiveram presentes na obra de Auster, muitas vezes como figuras cruciais para a narração, mas desde Travels in the Scriptorium esse papel foi passando gradualmente para o narrador/protagonista, culminado neste diário escrito por um homem no inverno da vida, num tom cinzento, amadurecido e ponderado a olhar para trás. Nostalgia, talvez algum arrependimento e também algum receio do que virá a seguir. Esperamos que sejam mais romances sobre a ruptura com a banalidade da vida no tom a que Paul Auster já nos habitou.

Sílvia Clemente

Robot e Frank (Robot & Frank)


Num futuro próximo e indeterminado, Frank Langella é um cidadão idoso com um passado pouco recomendável e um presente incerto. Conflitos familiares, uma personalidade difícil e uma temporada na prisão tornaram os "golden years" de Frank - Frank o personagem, não Frank o actor - num período conturbado, sobretudo quando se torna aparente que viver sozinho é uma opção arriscada devido aos lapsos de memória constantes do ex-ladrão. É por isso mesmo que um dos filhos de Frank, Hunter (James Marsden), decide oferecer ao pai um robô programado para cuidar das tarefas domésticas. Mas Frank não é um apreciador das novas tecnologias - é um dos últimos frequentadores da biblioteca local, a qual está prestes a ser "modernizada" - e a presença do robô em sua casa só é aceite após muita insistência do filho. Por ser ligeiro, mas no bom sentido, o filme acaba por debater temas sérios sem cair no dramatismo excessivo e enfadonho. Frank está senil e fragilizado, mas ainda sonha com os seus tempos áureos. Quando percebe que o robô, embora programado para tarefas de rotina doméstica, é capaz de aprender alguns truques que o ex-ladrão de jóias nunca esqueceu, Frank aproveita as capacidades da máquina para colocar em prática os últimos golpes de uma carreira de crime que parecia ter terminado. Aqui começa uma curiosa relação de cumplicidade entre o idoso avesso à tecnologia e o robô que, por ser uma máquina amoral, ou porque a sua programação o obriga a apoiar Frank, o ajuda a cometer vários crimes. Enquanto esta improvável amizade é solidificada, mantém-se a tensão entre Frank e os seus filhos e é revelado o seu carinho pela bibliotecária Jennifer (Susan Sarandon), na realidade a ex-mulher de Frank, cuja verdadeira identidade constitui um dos grandes lapsos de memória do protagonista. Uma narrativa assente em dualidades, que passam pelo conflito de gerações, a resistência à mudança, o interesse meramente arqueológico das novas gerações pelo passado recente, mas na qual o humanismo acaba por ser o valor que prevalece, mesmo quando o robô acaba por ser mais humano do que metade do elenco de secundários. Frank Langella-  muito bem secundado por Susan Sarandon e Peter Sarsgaard (que embora nunca apareça, dá a voz ao robô do título) - é o grande motor deste filme independente realizado pelo estreante Jake Schreier.

******* (7/10)

Miguel Ângelo Ribeiro

Hitchcock


Anthony Hopkins, habituado a transfigurações que passam muito pela exigência de similitude com figuras reais - já foi Picasso, John Quincy Adams e Richard Nixon, embora não seja fisicamente parecido com qualquer um deles - possivelmente foi a melhor escolha para o protagonismo de Hitchcock. Desta vez o trabalho exigia mais do actor, uma vez que parte do público, conheça ou desconheça a obra do cineasta, estará familiarizado com a postura e os maneirismos do icónico realizador britânico, especialmente devido ao seu papel de anfitrião na série de TV Hitchcock Apresenta. Hopkins não consegue ao longo de todo o filme - acredita-se que por impossibilidade física - assimilar-se mais com "Hitch" do que está à vista no trailer. A maquilhagem, que mereceu (?) uma nomeação ao Oscar da categoria, não ajuda, antes pelo contrário transforma o boneco numa figura excessivamente caricatural. Porém é de um filme que falamos e não de um programa de imitações, logo o todo não se esgota no papel de Hopkins que, não sendo perfeito, é perfeitamente competente. Esta não é uma biopic do realizador, antes um retrato de determinado momento na vida de Alfred Hitchcock, o qual coincide em grande parte com a rodagem de Psico, mas também com a pressão sobre o seu casamento com Alma Reville. O filme deixa antever a possibilidade de uma película superior, com um outro argumento que não se limitasse a esta dupla função: mostrar os bastidores de Psico e a conturbada relação do realizador com sua mulher e colaboradora. A narrativa acaba, assim, por ser uma das principais falhas de Hitchcock. Hellen Mirren não está no seu melhor, mas dadas as circunstâncias não precisava de o estar. O resto do elenco não se compara à dupla e, por ter pouco tempo de ecrã, não conta sequer para uma avaliação geral do filme. Mau? Bom? Nem uma coisa, nem outra. Interessante para quem conhece a obra de Alfred Hitchcock, nem tanto para os restantes.

****** (6/10)

Miguel Ângelo Ribeiro

Olá, eu sou o Red Room e sou alcoólico

Porquê The Red Room? Porque sim. Porque nos apetece. Após a justificação pueril - possivelmente a mais acertada -, porque The Red Room remete para vários universos ficcionais, alguns literários, outros cinematográficos, outros nem tanto. O título pode ser associado ao filme The Shining, de Stanley Kubrick, sendo que, neste caso, seria antes REDRUM, mas também à sala vermelha do conto The Masque of the Red Death, do ilustre senhor E. A. Poe, ou ao conto homónimo de H. G. Wells ou ainda, como está bem explícito (basta olhar para cima) à série de televisão Twin Peaks, atribuída a um tal de David Lynch, realizador, músico, artista plástico, actor ocasional e praticamente de meditação transcendental. E além disso soa bem. Ou talvez não, mas nós achámos que sim. Posto isto, fica por dizer que este é um blogue da (ir)responsabilidade de várias pessoas, inicialmente duas, mas esse número poderá crescer, sobretudo se não houver leitores. Quanto aos temas abordados, não obstante o referido no cabeçalho, poderão surgir outros, se tivermos tempo e o clima for propício. Prometemos apenas não falar em gastronomia gourmet e lifestyle. Para finalizar, é de notar que este blogue está-se nas tintas para o Desacordo Ortográfico. Uma vez por outra poderemos até acrescentar consoanctes mudhas só para chattear.