terça-feira, 26 de março de 2013

Efeitos Secundários (Side Effects)




Steven Soderbergh tem o mérito (ou será um defeito?) de não ser facilmente rotulado. É verdade que os seus filmes podem perfeitamente ser encaixados em embalagens mais ou menos estanques, desde o heist film extremamente "cool" da trilogia Ocean, aos thrillers em larga escala, como Tráfico e Contágio. Pelo caminho ficam alguns que não cabem nos caixotes, como o remake - que não é realmente remake - do clássico de Andrey Tarkovskiy, Solaris, e ainda Kafka. Efeitos Secundários é também um thriller, mas pessoal e intimista, embora não tanto como o foi O Falcão Inglês, um filme que gira em torno de um mistério, mas onde a vingança eminente pairava sempre. Jude Law - um dos protagonistas de Contágio - é Jonathan Banks, um psiquiatra inglês a viver nos Estados Unidos que, por aparente coincidência, está de serviço no hospital na noite em que Emily Taylor (Rooney Mara, livre de piercings, tatuagens e outros adornos) tenta suicidar-se. Após um breve diálogo entre ambos, Emily convence o psiquiatra que ela não deseja realmente morrer, apenas está a passar por uma fase complicada após a libertação do marido Martin (Channing Tatum, que começa a ser presença obrigatória nos filmes de Soderbergh), após ter cumprido pena por um crime de colarinho branco. Banks aceita dar alta a Emily, mas fá-la prometer que irá consultá-lo semanalmente.
A partir daqui assistimos, por um lado ao desagregar do casamento de Emily e Martin, ela afectada pela depressão, ele preocupado em recuperar o estilo de vida a que ambos estavam habituados, por outro, às consultas da mulher perturbada com Banks. Rapidamente os medicamentos receitados por Banks provocam os efeitos secundários do título, o que acelera o afastamento de Emily do marido, e força a que vários tipos de tratamento sejam testados, até alcançar o efeito desejado. Quando tudo parece estar encaminhado, uma reviravolta faz com que a segunda parte do filme passe de drama psiquiátrico a policial com laivos de teoria da conspiração, em parte graças à enigmática anterior psiquiatra de Emily, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones, de regresso aos papéis de relevo). Levanta-se o fantasma das ligações perigosas entre médicos e empresas farmacêuticas, revela-se que a postura de menina frágil da personagem de Rooney Mara esconde uma teia sórdida de mentiras e relações motivadas por interesses monetários, tudo isto a agravar a espiral de decadência que atinge a vida do psiquiatra britânico e ameaça a estabilidade da sua vida familiar e profissional. Aqui é o talento de Rooney Mara que impera, vivendo a duplicidade de carácter que marca Emily Taylor, enquanto Jude Law se encarrega de uma obsessiva investigação, a qual visa, ao mesmo tempo, provar a verdade por trás das mentiras, mas também a vingança de quem o tem ofendido nos 60 minutos anteriores. Os momentos tensos, as reviravoltas e surpresas, as interpretações seguras e a realização sempre profissional de Soderbergh criam um thriller dramático que supera a maioria dos recentes trabalhos do realizador norte-americano.

******* (7/10)

Miguel Ângelo Ribeiro