segunda-feira, 25 de março de 2013

O Inverno de Paul Auster



Paul Auster não será porventura um escritor para qualquer um e este seu Diário de Inverno em particular é um livro para fãs. Depois da elegia ao pai em The Invention of Solitude é a vez de uma biografia, segundo o próprio, centrada na memória da mãe. Claro que os detalhes sobre a figura da mãe do escritor são apenas um pormenor num conjunto de colecção de memórias intimista. Episódios e personagens que ilustram o homem por detrás da obra e deslindam um pouco do universo Austeriano, simultaneamente simples e complexo, banal e extraordinário quase sempre mesmerizante. Auster enumera casas e países em que viveu (incluindo Portugal, pormenor que não resisto a mencionar tendo em conta a popularidade do autor no nosso país), parceiras sexuais e afectivas, doenças e obsessões (a título pessoal sou  obrigada a considerar o basebol uma obsessão). Alguns paralelos entre a vida de Auster e a sua ficção são óbvios. Por exemplo o episódio da perda da virgindade, praticamente decalcado na Trilogia de Nova Iorque. O período passado em França durante a juventude ecoam em vários livros e a descrição da fase em que o escritor sofreu de ataques de pânico remetem para o narrador de Man in the Dark.
Velhos excêntricos sempre estiveram presentes na obra de Auster, muitas vezes como figuras cruciais para a narração, mas desde Travels in the Scriptorium esse papel foi passando gradualmente para o narrador/protagonista, culminado neste diário escrito por um homem no inverno da vida, num tom cinzento, amadurecido e ponderado a olhar para trás. Nostalgia, talvez algum arrependimento e também algum receio do que virá a seguir. Esperamos que sejam mais romances sobre a ruptura com a banalidade da vida no tom a que Paul Auster já nos habitou.

Sílvia Clemente