segunda-feira, 15 de abril de 2013

Da Vinci's Demons - a estreia



Da Vinci's Demons, que estreou ontem, domingo, no canal Fox, é uma co-produção do canal Starz (responsável por Spartacus) com a BBC Worldwide, cuja premissa assenta numa revisão da figura histórica de Leonardo Da Vinci, transformado num cruzamento de génio visionário, com aventureiro de capa e espada e investigador de conspirações, nas quais parecem existir fortes elementos de misticismo e sobrenatural.
Apresentada como uma produção enquadrada no género da "fantasia histórica", certas liberdades artísticas eram, não só de prever, mas perfeitamente aceitáveis. Mas não é o caso de Da Vinci's Demons, que altera de tal modo a figura histórica - ainda que não se saiba muito sobre a vida pessoal do homem real - que o que fica é uma caricatura digna de uma banda desenhada (facto ao que não será alheia a autoria da série pertencer a David S. Goyer, autor do argumento de filmes como O Cavaleiro das Trevas, O Cavaleiro das Trevas Renasce, O Corvo: Cidade dos Anjos, Blade e Man of Steel).
Ora o nosso Da Vinci em versão versão televisiva é um rapaz bem parecido - o actor Tom Riley - que enverga habitualmente um blusão de couro aberto até ao umbigo para exibir o peito (razoavelmente) cabeludo e os peitorais (razoavelmente) trabalhados no ginásio. Leonardo tem como pupilo um rapazinho louro e efeminado, mas não demonstra afectos para com ele mais do os normais numa relação heterossexual entre mentor e aprendiz. O artista anteriormente conhecido como Da Vinci pinta o retrato de uma jovem seminua, que depois se sabe ser a sua amante, noiva, concubina (ou qualquer coisa do género). Da Vinci testa um dos seus ambiciosos projectos e a coisa até funciona de forma (razoavelmente) espectacular e até entra em confronto com um grupo de guardas, com os quais lida com desenvoltura após conseguir desarmar um deles com um lenço, qual MacGyver de tempos remotos. Mais tarde, o homem ainda é seduzido por uma rapariga com pouco ar de musa do Renascimento, mas com aparência suficientemente sensual para uma actriz contemporânea - a britânica Laura Haddock. no papel de Lucrezia Donati, concubina de Lorenzo de Medici e, a partir do primeiro episódio, amante de Da Vinci. Em resumo, duas ou três liberdades artísticas sobre um génio que se sabe ter tido relações homossexuais com os seus pupilos (e não só), sobre o qual não se conhecem amantes do sexo feminino, cujos inventos, na maioria dos casos, eram apenas projectos que, na forma em que se encontravam, dificilmente teriam funcionado. Da Vinci não tinha, igualmente, fama de espadachim, nem de investigador do oculto, por mais enigmático que seja o sorriso da Mona Lisa. O personagem interpretado por Tom Riley evoca elementos de capitão Blood e Don Juan, cruzados com um génio, artista e inventor renascentista, ficando, então, muito distante do que terá sido a figura real.
Quanto a outras características da produção, o guarda-roupa varia entre o adequado e o estranho - já foi mencionado o hábito estranho de mostrar os peitorais musculados, que é partilhado por vários personagens na série - e os cenários, épicos e grandiosos, têm apenas o defeito de revelar demasiado a sua origem: CGI. As interpretações não são espantosas, mas também não é por aí que nos zangamos com esta produção da autoria de David S. Goyer. Parece teimosia, mas já é a segunda estreia em poucos dias que me dá vontade de dizer "se não fosse o título até escapava". A primeira foi Hannibal, que tem muito pouco de Lecter, ainda menos de Hopkins. Agora é um Da Vinci que só o é de nome. Todos os malabarismos da fantasia histórica teriam sido aceites, na minha opinião, menos a utilização (perfeitamente escusada) do nome Leonardo Da Vinci. Poderiam ter recorrido a um personagem inspirado no génio florentino, mas que lhe devesse apenas traços e não insistir nesta ideia dos "anos perdidos de Leonardo". Perdida está a oportunidade de conseguir uma série credível que não dê azo a gargalhadas nos momentos mais impróprios, como sejam as cenas de esgrima ou os actos de sedução a la Casanova. Não, assim não vamos lá...