quarta-feira, 10 de abril de 2013

El Tango de la Guardia Vieja



Aparentemente ainda sem tradução portuguesa - se há está bem escondida e não a encontrei - e mais uma entrada na lista de trabalhos de Reverte que não estão traduzidos em inglês, fala-se aqui do original espanhol, El Tango de la Guardia Vieja. Sendo leitor de Arturo Pérez-Reverte desde que vi o filme A Nona Porta (1999), de Roman Polanski, não preciso de incentivo algum para ler qualquer obra do autor espanhol. Mas, neste caso, a sinopse chamou-me a atenção, porque parecia assemelhar-se mais a alguns dos seus trabalhos dos anos 90, como A Tábua da Flandres, A Pele do Tambor e o Clube Dumas (que inspirou A Nona Porta), intrigas de mistério e suspense, povoadas por personagens irreais, mas dotados de uma caracterização fascinante que não os deixava cair na banalidade de meras caricaturas bidimensionais. O estilo de Pérez-Reverte sofreu, entretanto, um amadurecimento, tornando-se mais cru e realista - excepto a série Alatriste, provavelmente a que o tornou mais popular em todo o mundo, a qual permanece a mistura perfeita de História e aventuras de capa e espada.
Voltando à sinopse, fala ela de "um estranho desafio entre dois músicos, que leva um deles a Buenos Aires em 1928; uma história de espionagem na Riviera Francesa durante a Guerra Civil espanhola; uma inquietante partida de xadrez em Sorrento nos anos 60 (...) uma apaixonante história de amor, traições e intrigas que se prolonga durante quatro décadas, ao longo de um século fascinante e cheio de convulsões, iluminado pela luz crepuscular de uma época que se extingue". Ainda que o meu apreço se mantenha intacto pelo autor depois de ter lido A Rainha do Sul, o Pintor de Batalhas e O Cemitério dos Barco sem Nome - os mistérios, as conspirações e os personagens fascinantes não desapareceram de todo da obra de Reverte, simplesmente são agora descritos com mais realismo, o que não é mau, mas requer uma habituação ao amadurecimento literário do escritor -, a sinopse de El Tango de La Guardia Vieja tem um travo das obras mais antigas de Pérez-Reverte, talvez por ser um trabalho de época. Na realidade, o tema vai mais ao encontro do que antes se esperava de um livro do autor de O Hussardo, porém o estilo não voltou aos primórdios da sua escrita literária - digo literária porque Arturo Pérez-Reverte é jornalista e tem publicadas antologias de crónicas, além dos livros de ficção. Não se trata esta observação de uma crítica negativa, mas apenas uma constatação. As narrativas de Arturo Pérez-Reverte sofreram uma ligeira alteração ao longo dos anos e, provavelmente, assim continuarão a evoluir, sem que o núcleo do universo "Revertiano" tenha sofrido grandes mutações, a ponto de afastar os leitores.
Quanto ao enredo de El Tango de la Guardia Vieja pode adiantar-se um pouco mais do que a sinopse destaca sem revelar demasiado. A narrativa flui em três tempos distintos, nos quais se cruzam outras tantas vezes os dois protagonistas, Max Costa, dançarino de tangos, carismático, gigolô e ladrão de colarinho branco, e Mecha Inzunza, uma mulher forte, inteligente, determinada, bela e sedutora e que será o grande amor da vida de Max. A dupla de protagonistas conhece-se a bordo do transatlântico Cap Polonio, onde Max ganhava a vida dançando tangos com as passageiras endinheiradas, sobretudo com jovens solteiras que viajavam com os pais. Acaba por dançar também com Mecha, mulher do compositor Armando de Troeye. Este último tinha como objectivo neste cruzeiro pesquisar o tango dançado em Buenos Aires, após ter feito uma aposta com o amigo Maurice Ravel, que se propunha a compor um bolero. De Troeye estava determinado a bater Ravel, criando uma composição inspirada não nos tangos popularizados por Carlos Gardel, mas na música tocada e dançada em locais mal frequentados. Quando descobre que Max, espanhol nascido em Buenos Aires, conhece bem o que De Troeye pretende (aquilo a que o dançarino chama "tango da velha guarda"), o compositor convida-o a acompanhar o casal numa aventura nocturna nos bairros mais perigosos da cidade. O que se segue, ultrapassa o eventual perigo que correria um casal de espanhóis ricos, acompanhado de um aventureiro e ex-millitar, nos bairros onde se dança o tango da velha guarda. Passa também por um jogo de sedução sórdido, entre Armando e Mecha, que envolve alguns dos frequentadores da noite mais suja de Buenos Aires e o próprio Max. Como a sinopse revela, começa aqui uma relação estranha entre Max e Mecha, com a aprovação tácita do marido traído. Começa e rapidamente termina, de uma forma inesperada para todos.
Max e Mecha voltam a encontrar-se anos depois em Nice, quando Max, na altura dedicado a esquemas ilegais, burlas e furtos a senhoras ricas e solitárias, se vê forçado a participar num plano arriscado ao serviço de espiões italianos, com um espanhol opositor a Franco pelo meio. Não que Max tenha algum interesse na política ou na guerra, mas ao ver ameaçado o seu estilo de vida, tem que aceitar a proposta que lhe é feita, roubar alguns documentos importantes para ambos os lados da Guerra Civil de Espanha. A paixão entre os dois protagonistas é reatada, sem o terceiro elemento do primeiro encontro, Armando de Troeye que, nessa altura, está preso em Espanha. Mas tudo termina rapidamente, como da primeira vez.
O terceiro encontro acontece quase 40 anos depois de Buenos Aires, em Sorrento, Itália. Após vários êxitos, uma passagem pelo cárcere e outros fracassos com consequências ainda mais graves, Max é agora motorista do milionário Hugentobler. Durante os dias frenéticos da passagem de um torneio de xadrez, que opõe dois jogadores que disputam o título mundial, Max Costa reconhece Mecha, muito mais velha, como ele próprio, mas possuidora do mesmo charme e elegância de sempre. Recorrendo ao guarda roupa, acessórios e automóveis do seu patrão, que partira em férias, Max reencontra Mecha e faz-se passar por um homem bem sucedido. O destino dita que a dupla de protagonistas volte a cruzar-se num momento em que a tensão e o risco atravessam a vida de ambos: um dos jogadores de xadrez é filho de Mecha e ela propõe ao ex-amante que a ajude a desvendar um mistério que envolve uma traição entre os elementos da equipa que ajuda o jovem e ambicioso xadrezista a preparar as jogadas.
A história é narrada com o estilo elegante e ágil de Arturo Pérez-Reverte desrespeitando a cronologia dos eventos, mas com notória preocupação em respeitar a veracidade histórica - sem exageros descritivos, afinal Reverte não é um escritor académico, é um narrador com destreza. Os episódios, passados em diferentes épocas, sucedem-se seguindo a lógica do progresso dos acontecimentos dentro de cada etapa. Não será o melhor dos livros de Arturo Pérez-Reverte - um apreciador de tangos e xadrez provavelmente discordaria desta afirmação -, mas é, provavelmente, o melhor entre os mais recentes por ele escritos. Para quem aprecia Reverte é, sem dúvida alguma, uma excelente sugestão de leitura, em espanhol, para já, ou traduzida, em breve. Para quem não é fã de Reverte, basta que aprecie boas histórias de mistério, contadas com ritmo e sem a ligeireza excessiva de muitos livros do género.