segunda-feira, 8 de abril de 2013

Hannibal - A série de TV



A série Hannibal - com estreia marcada para a próxima segunda-feira, no AXN, às 22h25 tem como premissa uma adaptação à TV de personagens do romance Dragão Vermelho, da autoria de Thomas Harris, numa espécie de prequela do livro. Naturalmente, a ideia é, mais do que confiar na fama da obra literária, chamar a atenção para a produção televisiva através da popularidade das adaptações ao cinema, com Anthony Hopkins no papel do psiquiatra canibal Hannibal Lecter - anda para mais tendo em conta que a produtora da série, Martha de Laurentis, uma das filhas do mítico Dino de Laurentis, também produziu os filmes Dragão Vermelho, Hannibal e a prequela Hannibal - A Origem do Mal.
Até aqui tudo normal: Num terreno pouco explorado pela TV, enredos em que o assassino psicopata é também o protagonista, e onde Dexter dá cartas há vários anos, faz sentido ir buscar Lecter, um dos "monstros" mais populares do cinema, para que a série tenha algumas hipóteses de concorrer com o sucesso do serial killer de serial killers. Pois, mas o doutor Lecter da televisão - interpretado pelo dinamarquês Mads Mikkelsen - tem muito pouco que ver com o que já conhecemos, seja dos livros, seja do cinema. Em primeiro lugar, a série tem lugar na actualidade, cronologicamente cerca de 30 anos depois da publicação de Dragão Vermelho (1981), quando devia ser uma prequela, logo mais antiga. Não é grave, a adaptação ao cinema (de Brett Ratner) também não deu grande importância a essa discrepância temporal, até porque foi feita depois de Silêncio dos Inocentes e de Hannibal. Notou-se apenas uma ligeira tentativa cosmética de fazer Hopkins parecer um pouco mais novo, o que não terá sido complicado porque o seu papel é muito pequeno.
Mas continuemos. Hugh Dancy interpreta o papel do agente especial do FBI Will Graham (no cinema foi Edward Norton que o interpretou em Red Dragon, e William Petersen, o "senhor CSI", deu-lhe vida na versão do livro menos conhecida do grande público, denominada Manhunter, em 1986). Graham é um homem severamente perturbado devido ao seu trabalho passado. Perturbado é a palavra-chave. Perturbado como ex-militares e ex-polícias que sobreviveram a situações extremas. O "novo" Will Graham, ainda no activo, ao contrário do já conhecido, que está retirado, detesta "socializar", vive numa casa cheia de cães e parece ser tão alucinado como qualquer sociopata. Só que não comete crimes, ou pelo menos não os comete no primeiro episódio. Depois temos Laurence Fisburne, no papel de Jack Crawford, que já foi Harvey Keitel (em Dragão Vermelho), Scott Glenn (em Silêncio dos Inocentes) e Dennis Farina (em Manhunter). Além da mudança mais óbvia, a cor da pele, que é quase irrelevante para o caso, fica a sensação de que Fishburne está ali por causa do seu papel em CSI - curiosamente, em CSI, Fishburne foi ocupar o lugar deixado vago por William Petersen, actor que, na primeira versão cinematográfica de Dragão Vermelho, Manhunter, interpretou, como já foi mencionado, o papel de Will Graham. And the post thickens, but not the plot.
Quanto a Hannibal Lecter, não adianta esmiuçar a interpretação de Mads Mikkelsen. Lecter ficará para sempre na memória de (quase) todos na pele de Hopkins, embora haja um pequeno nicho de fãs do imaginário de Thomas Harris que considera Brian Cox, enquanto Hannibal Lecktor em Manhunter, tão bom ou melhor que o Lecter de Hopkins. Não adianta esmiuçar a interpretação, mas adianta interrogar-nos porque foi rejuvenescido. Lecter era uma criança na Segunda Guerra Mundial e chegou à actualidade com cerca de 40 anos? Bom, está visto que este Lecter não é o original. Também não se comporta da mesma forma que os outros Lecter (ou Lecktor) e veste-se como um hipster com gostos retro no que respeita à moda. Definitivamente este Lecter não é o mesmo dos livros, não é mesmo dos filmes com Anthony Hopkins, nem sequer tem semelhanças com o Lecktor de Brian Cox.
Então, em resumo, a época não coincide, Hannibal Lecter tem em comum com as versões anteriores do personagens o facto de ser psiquiatra a tempo inteiro, canibal nas horas vagas e nada mais, Will Graham é bastante diferente dos personagens, seja do livro, seja dos filmes e Laurence Fishburne está ali porque entrou em CSI. Então e o enredo, perguntam-se vocês? Por enquanto ainda é difícil prever se haverá um fio condutor ou apenas o psicopata da semana. O primeiro episódio, no entanto, não augura grandes rasgos de imaginação.
Bom e em que ficamos? A produção não é má, as interpretações deixam um pouco a desejar, o enredo é mais ou menos adequado. De facto, confesso, mais depressa acompanharia esta série do que Dexter, mas isso não abona muito a favor do Hannibal televisivo, uma vez que, na minha opinião, Dexter é uma má anedota que deixou de ter piada na primeira temporada e continua a ser contada e recontada indefinidamente. Como acontecia nos Malucos do Riso... O maior problema de Hannibal, na opinião deste habitante da Red Room, é precisamente Hannibal. O factor usado para atrair o público acaba por ser o pior inimigo da série, porque constitui uma fraude, não criminosa, felizmente, mas uma fraude na mesma. Não sei quem é este doutor Lecter, porém sei que nunca o tinha visto antes. Talvez lhe dê o benefício da dúvida e volte a consultá-lo, mas para isso vou ter que esquecer que é, alegadamente, inspirado em Dragão Vermelho.