domingo, 28 de abril de 2013

Mars: War Logs (PC)



Mars: War Logs, anteriormente conhecido como Mars, da Spiders, era um projecto de jogo mencionado em fóruns e sites da especialidade há cerca de dois anos. Subitamente, sem ter sido previamente anunciado com rigor, foi lançado no mercado no passado dia 26 de Abril. Trata-se de um RPG de ficção científica, com elementos cyberpunk, cuja acção se desenrola, naturalmente, em Marte. Mais propriamente numa prisão, na qual estão detidos membros de uma de duas grandes corporações em guerra pelo controlo da água no planeta vermelho, Aurora. O protagonista, o enigmático Roy Temperance, foi um militar ao serviço de Aurora na batalha contra Abundance, a segunda corporação, despótica e mais poderosa do que a rival. O objectivo de Roy é reunir o apoio de outros prisioneiros para fugir da prisão. O que se seguirá à fuga não se sabe e, provavelmente, só se saberá terminando o jogo, visto que o plano de Temperance não é revelado de início.



Este jogo, lançado pela Focus Home Interactive, é o segundo RPG da Spiders, que até aqui se tinha dedicado sobretudo a aventuras point-and-click - Gray Matter, Faery Legends of Avalon, The Testament of Sherlock Holmes e Sherlock Holmes vs Jack the Ripper resumem o currículo do estúdio. O primeiro role playing game, Of Orcs and Men, editado no ano passado, reuniu alguma crítica favorável, sobretudo pela forma original como coloca o jogador na pele de um orco, auxiliado por um goblin, numa revolta contra a opressão dos humanos. Deste só conheço os vídeos de promoção e pouco mais, portanto não sei se a originalidade se fica pela ironia da premissa, ou vai mais longe. Dizem que sim e, enquanto não testar, faço de conta que acredito. Quanto a Mars: Wars Logs...



Comecemos pelo bom, uma vez que um RPG de ficção científica, por si só, já constitui uma boa notícia (excelente mesmo, dada a raridade de RPGs que não sejam de fantasia).Visualmente, e embora os gráficos não sejam um ponto forte, o jogo está bem conseguido. A palete de cores ajuda a acentuar a ideia de que estamos fechados numa instituição prisional em Marte. O solo é avermelhado e há pó em todo o lado - pode, inclusive, ser usado para distrair inimigos em combate - os edifícios são cinzentos, pouco iluminados e os prisioneiros envergam roupagens gastas, com ar sujo e deteriorado. A par do ambiente, os personagens estão bem definidos e têm as suas próprias agendas; algumas cruzam-se com os interesses de Temperance, outras colocam-lhe entraves. Durante o processo de preparação da fuga, Temperance irá encontrar alguns aliados, como Innocence Smith, um jovem recentemente chegado à prisão. Os nomes não são coincidência ou apenas mau gosto: de acordo com a história de Mars: War Logs, os membros da guilda Aurora recebem sempre um nome ou apelido que corresponde a uma virtude - presumivelmente não apenas as sete virtudes católicas. As escolhas do protagonista alteram o desenrolar dos acontecimentos em pontos fulcrais do enredo, mas para evitar spoilers, não entramos por aí.
E agora o menos bom. Os gráficos já foram mencionados de passagem e aparentam ser de um jogo com mais de dois anos. Talvez se deva ao facto do jogo realmente já estar a ser preparado há mais de dois anos, ou talvez tenha sido uma forma de acelerar o lançamento de Mars: Wars Logs, que não estava previsto para tão cedo. Não obstante a imperfeição, a forma como a parte visual do jogo é apresentada ajuda a encobrir detalhes pouco trabalhados. O que não se pode disfarçar é a interpretação dos actores que dão voz aos personagens. Não é, seguramente, o pior voice acting que tenho ouvido ultimamente, mas também não está entre os melhores. Felizmente houve o cuidado de utilizar os actores mais talentosos em alguns papéis com mais discurso, como é o caso de Roy Temperance. 



O pior defeito do jogo, no entanto, acaba por ser um elogio ao trabalho da Spiders - a curta duração. Não que tenha terminado o jogo, longe disso, mas de acordo com os responsáveis por Mars: War Logs a missão principal, a fuga, pode ser concluída em quinze horas. As missões secundárias não são mencionadas, mas presume-se que não aumentem muito a duração. Quinze horas é manifestamente pouco num jogo em que se pretende que o personagem evolua em vários estilos de habilidades, do combate à perícia técnica, passando pela tecnomancia (a parte cyberpunk do jogo) e ainda usar materiais e peças que encontra pelo caminho para melhorar as armas, e a "armadura", construir bombas e armadilhas e soro vitalizante. Aparentemente não são planeados DLC para prolongar a história - até agora tal não sucedeu em qualquer dos jogos da Spiders -, mas fica no ar a possibilidade de uma sequela.
Em conclusão, os pontos fortes de Mars: War Logs, a história, a atmosfera, a jogabilidade, sobrepõem-se ao grafismo antiquado, ao voice acting com altos e baixos e à curta duração do jogo. E, vale a pena repetir, o facto de ser um RPG de ficção científica é sempre uma mais-valia.

Miguel Ângelo Ribeiro