sábado, 13 de abril de 2013

Spartacus - O Final




For one last time Spartacus spreads Roman cheeks and rams cock in arse [HERE THERE BE SPOILERS]






Victory é o título do derradeiro episódio de Spartacus e termina realmente com a vitória anunciada, se bem que não se trata do tipo de conquista com que sonhava Crixus the (almost) Undefeated Gaul no final desta terceira temporada, sub-titulada War of the Damned. O grupo liderado por Spartacus (Liam McIntyre) acaba por defrontar o exército comandado por Crassus (Simon Merrells) - não antes de uma troca de palavras entre ambos, adiada pela distância da guerra aberta - e alguns dos protagonistas sobrevivem. O final é épico, como seria de esperar, não deixa aberturas para a continuidade - excepto se alguém se lembrar de fazer um spin-off - e conclui, de forma muito satisfatória, uma temporada e uma série que, com alguns altos e baixos, foi um excelente exemplo de como levar para o pequeno ecrã uma produção de aventura, sem grandes preocupações com o rigor histórico, mas exímia na construção de personagens sólidos e de um enredo interessante e entusiasmante.
No encerramento, a produção da Starz recupera a estética inspirada no filme 300, que aqui e ali se foi notando na série, mas suavizada em relação aos primeiros episódios. Na altura foi fonte de críticas e, embora seja uma opção lógica, os excessos da colagem ao filme de Zack Snyder não ajudaram muito ao sucesso de Spartacus. Em versão mais suave, porém, tem resultado bastante bem ao longo de War of the Damned. Neste último episódio ajuda a salientar os episódios de batalha, que são bastantes e demorados.



Alia-se o cuidado estético a uma série de discursos motivadores proferidos por Spartacus diante do que resta dos seus seguidores, monólogos em que "liberdade" é a palavra-chave. Aqui encontramos  um outro distanciamento da primeira temporada, Blood and Sand - e esqueçamos para já a segunda, a mini-temporada que existiu para ocupar o espaço de Spartacus enquanto o primeiro actor que encarnou o personagem, Andy Withfield, lutava contra um linfoma que acabou por ser fatal. A "liberdade" e o desejo de a manter até ao fim substitui o desejo de vingança que movia Spartacus na primeira temporada. Não se volta a ouvir "kill em' all" desde que a casa Batiatus foi derrubada e começou a campanha de libertação dos escravos de Roma.
As batalhas são os momentos altos do episódio, como têm sido no culminar de cada uma das temporadas, mas sem esquecer os diálogos. Apesar da curiosa mistura de um vocabulário grandioso e verborreico com a utilização generosa de palavreado pouco adequado a jantares em família (enfim, tudo depende da família em questão), a verdade é que os diálogos e monólogos tiveram sempre um papel importante ao longo de toda esta produção da autoria de Steven S. DeKnight. O elenco não incluiu grandes nomes - os maiores, mesmo esses actores medianos, Lucy Lawless e John Hannah, já não integram a série há algum tempo -, mas o cuidado na elaboração dos textos serviu para compensar lacunas. E, a certa altura, até o neozelandês Manu Bennett (Crixus), um óbvio canastrão, conseguiu estar à altura do que lhe era exigido.



Quanto às mortes são muitas - e eram esperadas - no último episódio. Após a derrota do gaulês Crixus, no campo de batalha, seria de prever que Naevia (Cynthia Addai-Robinson) o seguisse para o Além. O mesmo é válido para vários germânicos, entre eles a ex-companheira de Gannicus (Dustin Clare), e outros personagens secundários que surgiram apenas em War of the Damned. Era previsível também a heróica morte de Spartacus, cuja habilidade enquanto líder militar foi superior ao que os romanos dele esperavam, permitindo que as mulheres, idosos, crianças e  não combatentes do grupo de escravos tenham conseguido escapar (não na totalidade, mas em parte). Spartacus não morre no campo de batalha e nem sequer tem oportunidade de derrotar o seu rival maior, Crassus, mas terá o seu momento final para dirigir algumas palavras de conforto e esperança aos sobreviventes, entre eles Agron (Daniel Feuerrigel), o único ex-gladiador da casa Batiatus ainda vivo por essa altura e que se presume irá tomar a liderança após a morte do protagonista. A opção de deixar Spartacus viver mais alguns momentos após ter sido mortalmente ferido em combate faz, assim, todo o sentido para dar um ponto final à narrativa - um ponto final que pode até ser entendido como reticências, uma vez que os sobreviventes partem para uma vida que, se espera, seja pacata e sem posteriores confrontos contra os exércitos de Roma.



Gannicus, o carismático personagem que nasceu da segunda mini-temporada, para retornar em grande em War of the Damned, é uma das baixas do derradeiro episódio. Como Spartacus, também não morre no campo de batalha, porém a opção tomada para o seu destino é um pouco mais estranha. Após um confronto final com César (Todd Lasance) que, já se sabe, nunca poderia terminar em vitória para Gannicus, o futuro líder de Roma retira-se e deixa que o antigo herói das arenas seja subjugado pelos legionários. Gannicus é feito prisioneiro e morrerá crucificado. Não estou certo do que estava na cabeça dos argumentistas ao excluírem Gannicus de uma morte heróica. Talvez por ele ser o único que ganhou a liberdade, não sentisse a necessidade de todos os outros de a conquistar, uma vez que já o fizera na arena, ou morrer no processo. Ou talvez tenha sido apenas um pretexto para a visão, no momento da morte, do seu velho amigo Doctore (Peter Mensah) e de uma arena com o público em delírio, como acontecia sempre que Gannicus lutava. O campeão das arenas morre com um sorriso nos lábios, possivelmente por saber que teve a vida de um homem livre à sua disposição, mas optou por arriscar tudo para ajudar os antigos companheiros. No fundo, acaba por ser uma das mortes mais heróicas, apesar de acontecer em cativeiro físico. A alma do guerreiro, naturalmente, não conseguiriam voltar a agrilhoar.



Não há pontos fracos a apontar a este último episódio. Logrou até corrigir um detalhe que estava a incomodar este habitante da Sala Vermelha há vários episódios: a postura arrogante e as pequenas vitórias de César, uma escolha injusta para os restantes personagens visto ser um figura histórica que, mesmo enquadrada pela liberdade criativa dos argumentistas desta produção da Starz, já se sabia que era um intocável. Sofre algumas humilhações mais neste último episódio, mas não do mesmo teor da sodomização por parte do filho de Crassus. Antes se revela que, afinal, não está assim tão seguro de si como até então - como se o personagem tivesse a noção que não poderia morrer nesta série - e comporta-se de forma mais cautelosa, mais consentânea com o que um líder romano com grandes aspirações deveria fazer numa situação similar. O resto é um constante apelo à liberdade dos resistentes, com um Spartacus seguro até ao final. Seguro de que, sobrevivendo ou não, tinha feito o seu trabalho e bastava agora que grande parte dos seus seguidores chegasse a bom porto para valer a pena todo o percurso desde as arenas de Roma. Uma grande série, que nunca ficará para a História por ser puro entretenimento. Cumpriu o seu dever e despediu-se em grande. Jupiter's cock!

Miguel Ângelo Ribeiro