segunda-feira, 1 de abril de 2013

The Walking Dead - Final da 3a Temporada



Terminou no domingo, com a exibição do episódio Welcome to the Tombs, a terceira temporada de um dos poucos clássicos instantâneos da televisão que ainda restam depois da euforia da década anterior, a década-da-TV-que-já-é-melhor-do-que-o-cinema. E, convenhamos, se o facto de ainda restarem clássicos instantâneos não constitui problema, a ideia de que as séries de TV tinham ultrapassado o cinema em qualidade era redutora e pateta e não faz falta à presente década. Acabou a temporada no meio das críticas habituais, que se resumem ao "isto não aconteceu como eu queria," oriundas sobretudo dos fanboys (e fangirls... Fanpersons, para ser politicamente correcto) que, há alguns anos, elevaram as séries de TV aos píncaros da glória. Mas esta não é altura certa para começar a bater no Joss Whedon e no J.J. Abrams. Também não vou alongar-me muito sobre o último episódio para evitar spoilers. Foi melhor do que os anteriores, não foi perfeito. Foi bastante mais movimentado do que os anteriores, mas nem tudo ficou resolvido. Foi um episódio final pouco conclusivo, mas sabe-se que a série irá continuar, por isso a conclusão virá a seu tempo, na quarta temporada. É frustrante ter que esperar? É, mas há coisas piores. As séries do Joss Whedon, por exemplo. Mas não entremos por aí...
A fase final da terceira temporada foi alvo de críticas, algumas delas merecidas, algo que não é novo. A certa altura todas as séries de culto acabam por sofrer do mesmo mal - até no caso de Lost, cujos argumentistas fizeram tudo para manter o interesse dos fãs hardcore e acabaram por criar uma complicação tão grande que o final, sem coerência absolutamente alguma, foi mais violentamente atacado do que é hábito. Mas voltando às críticas aos mortos que caminham. É verdade que os três episódios antes do final foram excessivamente lentos. Não é sequer aparente que tenham tido como objectivo focar as interacções de alguns personagens com mais demora, uma vez que deles não saiu qualquer resultado, seja no avanço da narrativa, ou na caracterização das figuras que estiveram na ribalta - sobretudo Rick (Andrew Lincoln) e Michone (Danai Gurira). Outra das críticas remonta ao início da terceira temporada e refere-se às mudanças sofridas por Andrea, a personagem encarnada por Laurie Holden. Esta decisão considero discutível e subjectiva. Não me agradou, mas poderá, eventualmente, ter algum impacto sobre o enredo. Não concordo que tenham destruído a personagem, enfraqueceram-na decerto, mas talvez o propósito tenha sido esse mesmo: num mundo em que já nada é como era antes, qualquer um(a) pode passar de potencial suicida a membro valioso(a) de um grupo de sobreviventes e atirador(a) de excelência, para depois ter uma recaída e apaixonar-se por um psicopata, só porque ele é o líder de uma comunidade que vive em casa onde há duches com água quente. Makes sense... Talvez algumas coisas tenham ficado por explicar, mas é bastante provável que a morte de Shane (Jon Berntal) tenha algo que ver com o sucedido à personagem de Laurie Holden. Quanto à morte de Merle Dixon (Michael Rooker), ainda que um tanto apressada, depois de vários episódios arrastados, já era de esperar e serviu de redenção a uma figura que nunca fora propriamente alvo da simpatia do público. De qualquer modo, Merle apareceu em muito poucos episódios para que alguma empatia tivesse sido criada com os espectadores. Diria mesmo que, se alguém deu conta do que aconteceu, foi precisamente porque o personagem morreu.
De qualquer modo, The Walking Dead continua a ser uma das melhores - possivelmente a melhor - série de TV da actualidade. E isto, simplesmente, porque faz o que é suposto fazer. Além de ser uma adaptação eficiente dos comics que lhe deram origem. Eficiente, neste caso, não é sinónimo de fiel, nem deveria ser, comics são comics e a sua transposição para o cinema ou TV requer uma mudança de linguagem, que pode traduzir-se numa mudança de enredo também. Em The Walking Dead houve uma adaptação que resultou, e continua a resultar, especialmente nesta fase do conflito entre o grupo de Rick e a comunidade que serve o Governador. Se a série da AMC tivesse sido extremamente rigorosa na adaptação poderia ter conseguido o apoio dos fanáticos da BD, correndo o risco de afastar todos os outros. Naturalmente a série foi construída tendo como público-alvo a base de fãs dos comics e o sucesso da banda desenhada, mas só produções de nicho e baixo custo é que se podem dar ao luxo de acarinhar os frequentadores das convenções de comics e esquecer os restantes espectadores. Neste caso, The Walking Dead, a série, surgiu numa altura em que, por muitos motivos que não adianta estar agora e enumerar, os zombies estavam na moda como nunca estiveram antes. E para além de ter conseguido captar a atenção de quem já seguia os comics e dos fãs dos filmes de zombies, chegou também a espectadores que não fazem a mínima ideia quem é George Romero.
Posso estar errado, mas creio que o segredo do sucesso de The Walking Dead é - a par de ter surgido na altura certa - ter abordado o conceito do zombie da mesma forma que o atrás citado George Romero, o "pai" do cinema de zombies "a sério". Não faltam produções de terror que envolvem a ressurreição de mortos, seja por que motivo pseudo-científico ou sobrenatural o respectivo argumentista desejar, e o seu ataque aos vivos, em hordas maiores ou menores, mais ou menos trôpegos, apreciadores de cérebros ou não tão selectivos do ponto de vista gastronómico. Muitos destes filmes até são comédias e não filmes de terror, o caso de 'Shaun of the Dead', 'Juan of the Dead' e da trilogia 'Evil Dead' (que em breve "sofrerá" um reboot e será prolongada para além da trilogia pelos autores do original). Mas poucos para além de Romero usaram o zombie como artifício para construir histórias sobre a interacção entre os vivos, a desagregação da sociedade contemporânea perante uma catástrofe de largas proporções, os significados de "civilização" e "humanidade" e o que pessoas normais estão dispostas a fazer para sobreviver num mundo pós-apocalíptico. Neste sentido A Estrada de Cormac McCarthy só não é uma história de zombies porque as "pessoas más" das quais o pai sobrevivente quer manter o filho afastado estão vivas. Voltando ao zombie stricto sensu presta-se na perfeição a este tipo de narrativa por não poder ser considerado o "outro" da mesma forma que vampiros, demónios, espíritos, ou outros seres sobrenaturais. Para além da falta de personalidade e de reagir apenas a instintos básicos, o zombie é um "outro" que mantém uma ligação muito estreita com o que era antes, o padeiro, o carteiro, o vizinho do lado, o dono da loja de conveniência, mas em estado de decomposição. Desprovidos de personalidade, de motivações complexas, os "inimigos", os "outros", na boa história de zombies permitem que se foque quem realmente interessa, os sobreviventes, os vivos.
Num primeiro momento, importa a descoberta do que se está a passar e a primeira reacção a uma situação de calamidade. É assim que começa The Walking Dead, com Rick a acordar do coma no hospital e é este, igualmente, o tema do primeiro filme de George Romero, Night of the Living Dead que, sob o pretexto de um grupo de pessoas fechadas numa casa atacada por zombies, introduz temas como o racismo, o sexismo, a cultura das armas e da violência e o papel da comunicação social na informação/ desinformação dos espectadores na América dos anos 60, ao mesmo tempo que mostra como a entreajuda e a solidariedade são, rapidamente, colocadas em questão por um grupo de seres humanos numa situação de perigo extremo. Nos filmes seguintes Romero mantém alguns dos temas do primeiro filme, mas soma-lhes ainda o papel da ciência na tentativa de encontrar uma solução para um problema desconhecido e os limites da ética que alguns estão dispostos a ultrapassar, a actuação das forças militares em decomposição no mundo pós-apocalíptico e a substituição do seu papel por milícias e bandos de sobreviventes armados, entre muitos outros temas sociologicamente relevantes. Um dos pontos fortes de The Walking Dead é que utilizou o mesmo tipo de aproximação às histórias de zombies de Romero, ainda que tenha simplificado um pouco a fórmula e dado prioridade à interacção dos protagonistas, aos seus problemas, querelas internas, lutas pela liderança, discussões, aproximações, laços de amizade e intimidade. Gostaria de acreditar que parte do êxito de The Walking Dead, a série, se deve ao facto dos autores terem retirado valiosos ensinamentos de séries como Battlestar Galactica (a versão reimaginada por Ronald D. Moore, não o clássico "camp" de 1978), Os Sopranos e Carnivàle, mas julgo que não, trata-se apenas de mais um exemplo isolado, que não fará escola. De resto lá vamos convivendo com os típicos personagens bidimensionais que lidam com o mistério/ homicídio/ planeta/ monstro da semana.