quinta-feira, 30 de Maio de 2013

Gangsters da Velha Guarda (Stand Up Guys) [Repost editado]



[Quando escrevi sobre este filme por altura da primeira data de estreia agendada, 28 de Março, o título ainda era Gangsters à Moda Antiga. Uma vez que o título mudou para Gangsters da Velha Guarda e, agora, a estreia já está definitivamente marcada para a próxima quinta-feira, dia 6 de Junho, recupero este post esquecido no meio dos restantes. É que este filme merece mesmo ser visto.]

Stand Up Guys gira em torno de três gangsters idosos, um deles reformado, o outro retirado à força pois está preso há quase três décadas, um deles ainda no activo. Mas mais do que isto é uma história sobre laços de amizade que perduram, uma narrativa comovente, mas não lamechas, sobre a honra entre ladrões, redenção, valores antiquados e como a terceira idade nem sempre é sinónimo de estar sentado com uma manta sobre as pernas a assistir a maus programas na TV. Val (Al Pacino) saiu da prisão 28 anos após ter sido o único do seu gangue a ser capturado pela Polícia, durante um golpe que correu mal. Val manteve o silêncio e não delatou os cúmplices. À sua espera, à porta da penitenciária, está Doc (Christopher Walken), um dos gangsters que se safou à condenação, graças ao seu velho amigo. Mas o papel de Doc é dúbio, pois ele foi contratado por Claphands (Mark Margolis), o mentor do antigo gangue, para eliminar Val. Claphands respeita o silêncio de Val, mas quer vingar a morte do filho, pela qual culpa todo o grupo, sobretudo o personagem interpretado por Pacino. Doc não quer matar Val, naturalmente. Embora tenham passado quase 30 anos ele era o seu melhor amigo. E a lealdade não tem preço. Mas a vida também não o tem e, caso não cumpra o contrato, Claphands tratará de eliminar ambos. Perante a hesitação de Doc, é-lhe dado um prazo cuja limite termina às dez horas do dia seguinte à libertação de Val. Mas antes de mais, o que o homem acabado de sair da prisão quer é divertir-se. Reunir o antigo grupo, do qual sobreviveu também o motorista Hirsch (Alan Arkin), para uma noite de álcool, drogas, sexo e, eventualmente, um último golpe. A tensão é evidente e, mesmo antes de Doc revelar o seu plano, Val desconfia que Claphands planeia matá-lo. Isso não impede, porém, que Val se queira divertir, apesar dos prudentes conselhos de Doc. Hirsch, cuja vida tomou um rumo mais calmo, a princípio está relutante em acompanhar os dois amigos, mas acaba por viver uma noite inesquecível e revelar uma vigorosa performance sexual que espanta as prostitutas do bordel que frequentavam enquanto jovens (agora gerido pela filha da anterior "madame"). Sucedem-se os momentos francamente hilariantes enquanto o trio de veteranos do crime mostra ao mundo que já não se fazem gangsters como antigamente. Embora o argumento não dê a Al Pacino grande oportunidade para os seus clássicos monólogos "pacínicos", o personagem está muito bem construído e é feito à medida do actor. Ele veste-o com elegância e notória facilidade. Christopher Walken... Bom, Christopher Walken é Christopher Walken num papel de Christopher Walken - um pouco mais duro e sinistro do que em Sete Psicopatas, mas numa linha similar. Se o seu personagem não domina o filme é porque está lá Pacino, mas dividem o protagonismo de forma exemplar. Não há atropelos possíveis, os dois actores são tão ou mais veteranos do que os seus personagens. Alan Arkin, por seu turno, está encarregue do lado mais cómico da película, embora acabe por ser também vítima de alguns dos momentos dramáticos. Encarrega-se com excelência do condutor de fugas e completa um trio brilhante. Quer isto dizer que é um filme com todos os ingredientes que se pode pedir: Acção, humor, drama e um tiroteio final - de salientar que a cena final, que deixa a conclusão em aberto, é um tratado de bom cinema, que ficará para a história. É verdade que filmes sobre veteranos do crime que se juntam, muitos anos depois, para golpes finais é um cliché  da Sétima Arte, mas este é um cliché com Al Pacino, Christopher Walken e Alan Arkin - e também Julianna Margulies, Vanessa Ferlito, Craig Sheffer e Mark Margolis em papéis secundários - realizado por Fisher Steven, que sendo mais conhecido enquanto actor, não é propriamente um estreante. Pode não parecer, mas provavelmente será um dos melhores filmes do ano, pelo menos para quem aprecia filmes simples e com coração, tripas e alma, que tocam temas duros e dramáticos sem pieguice. E este tem isso tudo e mais alguma coisa.

Miguel A. Ribeiro

******** (8/10)