sábado, 18 de maio de 2013

NOS4A2, ou o Nosferatu palerma



Vou repetir o que já referi aquando do lançamento do livro: Não quero julgar o Joe Hill como filho do King, posto isto tenho de dizer que este NOS4A2 é, em termos mais simpáticos, uma palermice.
Vamos analisar o enredo: Vic McQueen é uma jovem com um talento secreto para encontrar coisas perdidas. A sua bicicleta Raleigh consegue atravessar uma ponte coberta que já não existe e leva-a sempre onde é preciso. A Raleigh somada às crises de adolescência levam Vic a cruzar-se com Charles Talent Manx, um homem com um poder semelhante ao de Vic. No seu Rolls-Royce Wraith de 1938 (com matricula que dá nome ao livro) rapta crianças e transporta-as para "Christmasland", um local magicamente aterrador onde é sempre Natal. Manx é uma espécie de vampiro. Para se manter vivo suga tristezas, preocupações, em suma, a humanidade às crianças, transformando-as numa espécie de elfos do Pai Natal em versão malvada e gélida. Vic consegue escapar das garras de Manx levando a que este seja preso por pedofilia e homicídio. Anos depois um incauto recupera o Wraith, espoletando a fuga e vingança de Manx que pretende matar Vic e levar o filho dela para Christmasland. Com passar dos anos Vic tornou-se um farrapo emocional, demasiado álcool e drogas para acalmar a loucura (ou seja o costume). Agora tem de voltar a encontrar a ponte da sua infância e admitir que, afinal, não era louca, para recuperar o filho.
Se porventura não acharam esta sinopse alargada má o suficiente juntemos-lhe o namorado de Vic, Lou. Um jovem geek obeso e barbudo, mecânico de motos, que a apanha à beira da estrada no fatídico dia em que fugiu de Manx. Aquela boleia é aparentemente equivalente a um acto heróico que lhe valeu uma relação com uma gaja boa. O fruto desta linda história de amor é baptizado de Bruce Wayne. As referências à cultura geek daqui para a frente são numerosas e extremamente irritantes e gratuitas. Mas isso pode ser uma questão de gosto pessoal.
O problema real de NOS4A2 não é a geekness nem o enredo palerma (claro que tudo ajuda), mas de tudo nesta história cheirar a cliché e estereótipo. É verdade que o terror está como toda a literatura de género sujeito ao cliché, mas há que saber contornar o inevitável. Isto consegue-se no caso do terror criando personagens com dimensões reais. A sensação de medo e desconforto quando se lê uma história assustadora vem da nossa vulnerabilidade. O terror tem de ser humano e isto consegue-se escrevendo muito bem (o que é uma excepção neste género) ou criando personagens que não sejam bonecos de cartão. Ter uma tatuagem de um motor de Harley por cima das mamas não dá dimensão a nada. Como Hill, pelos vistos, não sabe criar personagens nem escrever muito bem, mas resolveu escrever um livro de 700 páginas, teve que o encher com palha. Optou por coisas que transmitissem a ideia de badassness (tatuagens, veículos vintage) para dar um ar "fixe" e referências geeks para o público se identificar com a história. O resultado é extremamente palerma, mas resultou. A crítica recebeu o livro muito bem e o público também. Vai vender como pipocas num multiplex e Joe Hill está quase pronto para ser o Stephen King da sua geração. Quanto a mim, tenho que me afastar deste tipo de livros e ir à procura de terror decente para outros lados.