quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os abomináveis Burton & Depp





A propósito da recente notícia que Tim Burton está a planear, numa habitual parceria com o seu actor fetiche Johnny Depp, um remake do clássico The Abominable Dr. Phibes (1971), ontem à noite revi o filme de culto de Robert Fuest, protagonizado por Vincent Price.
Em primeiro lugar reconheço que, independentemente do estatuto da película no currículo do admirável senhor Price, não se encontra na lista das minhas preferências. Será uma questão de gosto - bom ou mau -, mas no meu Top 10 de Price a maioria dos lugares estão ocupados pelas adaptações de Poe realizadas por Roger Corman, excepções feitas aos excelentes House on Haunted Hill (1959), de William Castle, e The Last Man on Earth (1964), de Ubaldo Ragona. Phibes é excessivamente "camp" e sofre com a falta de diálogos do protagonista, justificados plenamente pelo enredo, mas que não deixam de ser, na minha opinião, um problema: a voz de Vincent Price faz falta. Feita esta observação, é um bom filme que merece ser considerado um clássico do terror. Resta saber se merece ser "vítima" de um remake.



Em segundo lugar, gostaria de esclarecer que fui - e gostaria de voltar a ser - um admirador do trabalho de Tim Burton. Beetle Juice (1988), Batman (1989), Edward Scissorhands (1990), Ed Wood (1994), Mars Attacks! (1996), Sleepy Hollow (1999) e Big Fish (2003) são todos bons filmes. Alguns alcançam mesmo a marca da excelência e metade deles são protagonizados por Johnny Depp. Os problemas começam depois de Big Fish, ainda que pelo meio das películas antes referidas surjam trabalhos menos bons, como o remake de Planet of the Apes (2001). Charlie and the Chocolate Factory (2005), Corpse Bride (2005), Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (2007), Alice in Wonderland (2010) e Dark Shadows (2012) são uma sequência de filmes em que a imbecilidade dos enredos, a miserável prestação dos actores, a infantilidade dos temas e a completa ausência de sobriedade na cenografia, guarda-roupa, efeitos visuais e maquilhagem transformaram a obra de Burton num circo e Johnny Depp e Helena Bonham Carter em dois palhaços.



Ainda a propósito do título gostaria de acrescentar que nada tenho contra Johnny Depp. Para além de Edward Scissorhands, Sleepy Hollow e Ed Wood, os filmes de Burton que protagonizou e que eu aprecio, também adianta salientar a interpretação do actor em Benny & Joon (1993), What's Eating Gilbert Grape (1993), Don Juan deMarco (1994), Nick of Time (1995) , Donnie Brasco (1997), Fear and Loathing in Las Vegas (1998) e The Ninth Gate (1999). É verdade que eu muitos destes está à sombra de nomes maiores do cinema como Marlon Brando, Al Pacino, Christopher Walken ou Frank Langella, mas isso não diminui o seu papel. Até 2003, ano em que (aparentemente) vendeu a alma à Disney em troca do papel de Jack Sparrow, era um actor. Depois tornou-se numa espécie de transformista do cinema, não porque esteja propositadamente a vestir-se de mulher em todos os filmes, mas porque acaba sempre por parecer uma matrafona.



The Abominable Dr. Phibes seria, à primeira vista, devido à sua "campiness" e alguns excessos e bizarrias próprios dos anos 70, o ideal para esta dupla, depois dos últimos filmes que fizeram. Infelizmente são mesmo estas características que fazem temer o pior, porque permitirão a Burton & Depp darem vazão à sua actual tendência para o ultra-kitsch. Mais grave do que isso, é um filme com Vincent Price, figura que Burton tanto admira (ou admirou) e que lhe fez o grande favor de emprestar a voz à curta-metragem Vincent (1982), quando Burton era apenas mais um funcionário da Disney. Tim Burton haveria, mais tarde, de homenagear o grande Price com o papel do Inventor, escrito propositadamente para o actor, em Edward Scissorhands, e que acabou por ser o último da sua longa carreira. Ora um remake de The Abominable Dr. Phibes ao nível de Dark Shadows ou Sweeney Todd seria o mesmo que cuspir na sepultura de Price e, por muitas homenagens que Burton lhe tenha feito, nenhuma lhe deu o direito de ser rude para com o ilustre falecido.

Miguel Ângelo Ribeiro