terça-feira, 7 de maio de 2013

The Lords of Salem



The Lords of Salem, para quem não acompanha os meandros do cinema de terror, é o mais recente filme do músico e realizador Rob Zombie, um filme ainda inédito em Portugal, e sem data de estreia agendada por cá (e como isso, normalmente, indicia que não vai estrear nas salas de cinema nacionais, ou então passará despercebido por uma ou duas, achei melhor falar sobre o filme, antes que passe o prazo de validade). Na frase anterior a palavra "recente" é usada com alguma liberdade, na verdade é uma produção do ano passado, que passou vários meses no circuito dos festivais - Toronto, Sitges, Turim, Glasgow, South by Southwest - até ter estreado nas salas dos Estados Unidos, Rússia, Itália e Inglaterra no final de Abril.



Antes do filme, um preâmbulo... Eu aprecio o trabalho do Rob. Gosto do apelido que escolheu, fica-lhe bem. Na adolescência era fã da banda que o Rob liderava e onde era o principal vocalista, os White Zombie. Os próprios temas da banda de heavy metal - para além do nome, que remete para um clássico do terror protagonizado por Bela Lugosi - estavam pejados de sound bytes de filmes de terror e ficção científica de série B, uma prova irrefutável da cinefilia de Rob Zombie. O camarada Rob aprecia bom (e mau) cinema de terror e não só. Outro dos motivos para gostar do trabalho de Rob Zombie é a sua apetência para mostrar doses generosas de Sheri Moon (a senhora Zombie), nos seus filmes. Não é o caso de The Lords of Salem, pois os "quarentas" não foram muito generosos para com Sheri Moon e, embora mantenha a boa forma, as marcas da idade no rosto fazem-na parecer um pouco mais velha. But that's beside the point. Esta conversa toda para dizer que eu gostei bastante de A Casa dos 1000 Cadáveres (House of 1000 Corpses) e ainda mais da sua sequela Os Renegados do Diabo (The Devils Rejects), ambos filmes de culto, os quais demonstraram que, apesar da inexperiência de Rob Zombie na direcção de filmes, o músico conseguiu deixar uma marca própria no cinema de terror. Não vou falar do remake de Halloween, é uma boa execução, mas não deixa de ser um remake de um filme que os dispensa.



Agora sim, The Lords of Salem. Antes de mais uma sinopse. Heidi Hawthorne (Sheri Moon Zombie), DJ de uma rádio, que apresenta o programa Big H Radio Team com Herman Whitey (Jeff Daniel Phillips) e Herman Jackson (Ken Foree, um dos actores do clássico de Romero Dawn of the Dead) é a protagonista. Heidi recebe como oferta de uma banda de heavy metal, The Lords of Salem, um disco de vinil, embalado numa estranha caixa de madeira e um bilhete para um concerto do grupo. Apostada em dar visibilidade à banda desconhecida, ela passa uma das músicas no seu programa e acaba por ser um sucesso entre os ouvintes. A partir desse dia os problemas começam e agravam-se no dia em que o trio comparece no concerto dos Lords of Salem. A início Heidi sofre perdas de memória e é incomodada com estranhas visões, mas a situação vai-se agravando. E pronto, contar mais requeria um spoiler alert...
Quando decidi ver The Lords of Salem não esperava apenas uma boa execução, mas um filme de Rob Zombie. Quem viu os dois filmes que referi antes sabe do que estou a falar, há uma coerência no universo de personagens e temas de Rob Zombie, explorados em A Casa dos 1000 cadáveres e sequela - sendo que, neste caso, e ao contrário do que é usual, considero a sequela muito superior ao primeiro filme. Começa pela violência excessiva, mas suavizada pela dose de humor negro, passa pelas referência cinematográficas e termina na escolha dos anti-heróis que protagonizam ambos os filme. Não serão as únicas películas em que os "maus" são os protagonistas, mas neste caso os "Renegados" não são propriamente vilões, são criminosos, debochados, violentos, psicopatas, mas caracterizados de uma forma que, se não simpatizarmos com ele, pelo menos cria-se uma empatia com aqueles marginais da sociedade. O final de Os Renegados do Diabo, em que a família Firefly investe contra uma barreira policial, num acto final de desafio à autoridade que, era sabido, só podia terminar com a morte de todos, justifica a evolução dos personagens e do enredo ao longo dos dois filmes e, de certa forma, acaba por ser a redenção do patriarca, Capitão Spaulding (Sid Haig), e seus familiares. Mas The Lords of Salem não está na mesma categoria de Os Renegados do Diabo.



O novo filme de Rob Zombie parece ter sido um passo demasiado grande para as pernas do inexperiente realizador. Com a "dulogia" dos Renegados Zombie tinha criado o seu próprio estilo, em The Lords of Salem mantém algumas das características, sobretudo na construção de personagens (o estranho trio de radialistas mostra aquilo que o homem sabe fazer bem). Mas depois perde-se numa mistura de temáticas e influências, que inclui uma homenagem ao giallo e, mais do que isso, a Dario Argento - julgo que não fui apenas eu a entrever o enredo da trilogia das Três Mães na história de bruxas de The Lords of Salem -, referências mais ou menos explícitas a Rosemary's Baby (em português A Semente do Diabo), de Roman Polanski, e ainda um experimentalismo bizarro, que não vou comparar a David Lynch porque não faço ideia se era aí que Rob Zombie queria chegar. Tudo isto servido em camadas sobre um enredo que é recorrente no cinema norte-americano, os julgamentos de bruxaria em Salem.



Bom, depois de tanto bater no filme, convém explicar que, apesar de ter sido uma decepção, é dos melhores filmes de terror que vi nos últimos tempos. É verdade que a concorrência não é forte e quase se resume a sequelas pré-fabricadas em CGI de clássicos que não perderam nada do seu charme, xaropadas com casas assombradas ou meninas e meninos possuídos por entidades várias e filmes de zombies nos quais os zombies nem sempre são realmente zombies, mas movem-se em hordas bambaleantes. Assim, The Lords of Salem, com todos os seus defeitos - a acrescentar aos outros, Sheri Moon não é a pessoa indicada para o papel de Hedi Hawthorne - e, acima de tudo, sem as qualidades que eu esperava encontrar no filme, acaba por ser uma excelente opção para ver, provavelmente não no cinema, mas quando for editado em DVD/ Blu-ray. Ou então encomendar de um país civilizado que respeite o género do terror e não o confunda com filmes-pipoca para adolescente ver.

****** (6/10)