quinta-feira, 16 de maio de 2013

World War Z - O livro e a antevisão da catástrofe cinematográfica



Há cerca de uma semana, porque se aproxima a data de estreia de World War Z e por sugestão de Rui Anselmo, livreiro-mor do Reino de Portugal e Algarves (e colaborador muito "discreto" deste blogue/ página do Facebook. Sim, sim, é uma provocação!), peguei no livro que deu origem à adaptação ao cinema de Marc Forster (e quem é quer saber do Marc Forster? É um filme com o Brad Pitt, pronto). Peguei nele com a intenção de o ler até ao final. Pode parecer que a frase anterior é uma tentativa de produzir humor, mas não, é um facto. Iniciar a leitura de um trabalho de Max Brooks era um acontecimento bastante improvável, uma vez que, em tempos, adquiri (ou ofereceram-me, para o caso em questão é indiferente) The Zombie Survival Guide e, embora tivesse a intenção de o ler, não passei das primeiras 10 ou 20 páginas. Isto porque, não obstante o sentido de humor, as referências cinematográficas, literárias e à cultura pop em geral, The Zombie Survival Guide segue o formato do tipo de livro que satiriza, os manuais de sobrevivência. Como piada é interessante, se fosse um conjunto de imagens com legendas teria todo o gosto em partilhá-lo freneticamente em todas as redes sociais e até via e-mail, mas é um livro. E eu não leio manuais de sobrevivência, mesmo quando são sátiras.
Enfim, devido ao aconselhamento do meu camarada blogueiro e ao apelido de Max - ser filho de Mel Brooks não é coisa de somenos importância - acabei por ler The World War Z: An Oral History of the Zombie War. Ao contrário do livro anterior do senhor Brooks, este é um romance, ainda que não siga a estrutura narrativa mais típica do género. Trata-se de uma compilação de relatos orais (como o título indica) de sobreviventes da guerra que opôs os vivos aos zombies, reunidos uma década após o conflito, com o objectivo de produzir um relatório para as Nações Unidas. Os entrevistados são figuras muito distintas, desde o mero espectador de uma situação da guerra relevante do ponto vista humano, estratégico, militar ou outro, até personalidades cujas acções (ou inacções) causaram impacto sobre o rumo dos eventos ou ainda "peões" que cumpriram (ou recusaram-se a cumprir) a sua missão ao serviço de instituições estatais ou corporações privadas. Estas figuras são oriundas de múltiplos países e entrevistadas em redor do globo pelo narrador.



A qualidade literária da escrita de Max Brooks não será posta em causa na avaliação deste livro uma vez que, como já foi mencionado, trata-se de uma compilação de registos orais. As entrevistas nem sequer obedecem ao formato do género jornalístico homónimo, pois não era esse o seu propósito. É uma relatório, nada mais, mas isso não torna o livro entediante. O interesse de The World War Z revela-se na criação de uma série de personagens com tipos de discurso díspares, formas de ver o mundo muito diferentes, alguns com agendas específicas, alguns com segredos a ocultar, alguns brutalmente honestos, alguns confusos, alguns com demasiadas certezas. Enfim, exemplos de muitos seres humanos, oriundos de variadas culturas e classes sociais, com histórias de vida que vão do extremamente invulgar, até ao mais terrivelmente mediano e que passaram por uma longa e bizarra situação de guerra.
O meu objectivo não é fazer aqui uma verdadeira crítica ao livro. Recomendo-o, naturalmente, a quem gosta de filmes de zombies (em particular a quem gosta de filmes de zombies de George Romero, porque ele é uma das inspirações fundamentais de Max Brooks. O que significa que esta não é apenas uma história imbecil que relata como pessoas sobreviveram ao holocausto zombie a cortar cabeças, mas antes uma análise dos efeitos sociológicos e antropológicos que o dito holocausto zombie teve sobre a vida quotidiana dos vivos, sempre com uma visão ácida sobre o papel dos políticos, da comunicação social e das corporações). Recomendo-o também a quem aprecia histórias com sentido de humor e muito sarcasmo. Recomendo-o a quem lê Chuck Palahniuk porque é um escritor cuja carreira foi construída sobre as anteriores premissas. Mas o que me preocupa agora é o filme...



Depois de tudo o que foi dito sobre o o The World War Z: An Oral History of the Zombie War, parece-me que o filme vai ser a antítese de tudo isto ou, na melhor das hipóteses, vai ignorar a maior parte do que faz de World War Z um bom livro. Pelo que é apresentado no trailer estou à espera de um filme catástrofe, passado durante a guerra contra os zombies e não no seu rescaldo. Embora no elenco figurem grande parte, ou até a totalidade, dos personagens entrevistados pelo narrador do livro, o mais provável é que a película mostre os acontecimentos em tempo real e não em flashback. E será que o personagem de Brad Pitt vai estar nos Estados Unidos, em África, na Rússia, na Finlândia, no Alasca e no raio que o parta a acompanhar, de rifle de assalto em punho, tudo e mais alguma coisa que se passa durante a World War Z? Não sei, parece absurdo, mas tendo em conta o que os blockbusters de Hollywood se tornaram ao longo das últimas décadas, já acredito em tudo. E é pena se assim for. Era uma excelente oportunidade para alguém, que não o George Romero, fazer um filme de zombies em condições. Em 20 de Junho (mais coisa, menos coisa) teremos a certeza.