terça-feira, 4 de junho de 2013

666 Park Avenue


666 Park Avenue, série de terror do canal norte-americano ABC, não é novidade, estreou no ano passado e o seu cancelamento foi anunciado há seis meses, muito antes do final da primeira temporada. Não faria muito sentido escrever sobre ela, mas embora seja fraca é superior a outras produções de terror para TV actuais - sim, Hannibal, estou a olhar para ti - e está em exibição no TVS HD, o canal de séries do pacote TVCine.



Não há como evitar começar pelo lado pior de 666 Park Avenue. À primeira vista trata-se de uma imitação barata de The Devil's Advocate (1997). À segunda vista também. Depois, vislumbram-se possíveis inspirações no clássico de Polanski Rosermary's Baby (1968) e até (um pouco rebuscado, mas enfim) Inferno (1980), de Dario Argento. Isto porque a maioria da acção passa-se no interior de um prédio - cuja morada é quase o título, basta trocar 666 por 999 - cujo proprietário é Gavin Doran (Terry O'Quinn) um sujeito que fez um pacto com o Demo. O enredo parte da contratação de um casal de namorados, Jane (Rachel Taylor) e Henry (Dave Anabelle), para gerir o condomínio. Convém mencionar que Henry tem um segundo emprego na Câmara Municipal de Nova Iorque, mas o seu CV inclui um curso em Direito. Logo, o advogado do Diabo, ou de um sujeito que tem relações íntimas com o Cornudo. 





Naturalmente as comparações não ficam por aqui. Rachel Taylor não é um clone de Charlize Theron, mas é bastante loura e vista sob alguns ângulos da câmara faz lembrar a namorada de Keanu Reeves em The Devil's Advocate. O próprio Gavin, além das actividades pérfidas e demoníacas, também está envolvido em complicados esquemas lucrativos, que envolvem corrupção e outros métodos mais agressivos. Tal e qual John Milton (Al Pacino). Mas Terry O'Quinn não é Al Pacino e a interpretação do homem que alcançou a fama (tardiamente) em Lost só nos convence que é um milionário sem escrúpulos que negoceia em imóveis. A intervenção diabólica é óbvia, o sobrenatural não é apenas sugerido, mas O'Quinn é tão Satanás como qualquer empresário da construção civil.



A parte positiva de 666 Park Avenue é o facto do seu enredo ter continuidade - ainda que a evolução da história coexista com os mistérios sobrenaturais da semana - algo que faz falta a este tipo de produção. E, ao contrário de American Horror Story, outra série que gira em torno de um casal que habita um edifício com uma aura maligna, não abusa tanto dos clichés (na realidade American Horror Story já devia ter ganho um galardão por ter ultrapassado, inadvertidamente, a série Scary Movie em número de clichés idiotas por minuto). O argumento, apesar do percalço que a colocou numa comparação imediata com The Devil's Advocate, não é mau de todo e teria potencial para continuidade. Afinal um prédio inteiro com ligações estreitas com o Demo tem muitas potenciais histórias para explorar. Ficou pelas 13, o número de episódios que compõem a primeira (e única temporada).

Miguel Ângelo Ribeiro