domingo, 2 de junho de 2013

Everybody Knows: Twin Peaks



Quem matou Laura Palmer?, esta foi a questão que, em meados de 1990, inquietou muitos espectadores em redor do planeta. Twin Peaks, a série de culto de David Lynch, provou que uma produção artística seria capaz de prender o público ao ecrã. Pelo menos durante uma temporada. Pelo menos no início dos anos 90. Que o êxito se pudesse repetir na actualidade é bastante duvidoso.



O motor do enredo, como (provavelmente) toda a gente que contactou com a série se deve recordar, é a descoberta macabra do cadáver de Laura Palmer (Sheryl Lee), envolto em plástico, à beira do lago de Twin Peaks, uma cidade fictícia situado na região noroeste do Estado de Washington. A imagem icónica, imaginada por Lynch durante numa conversa de café com Mark Frost, co-autor da série, foi o ponto de partida para o que começou por ser um thriller.



Na altura em que Twin Peaks estreou na ABC David Lynch era já um cineasta reputado, mas cuja relação com a televisão não se ficou por aí. No ano seguinte, igualmente em colaboração com Mark Frost, Lynch assinou uma pequena produção, comédia negra nos bastidores da televisão, intitulada On the Air. Esta ficou perdida nas brumas da memória, enquanto Twin Peaks foi alvo de tanta atenção que, ainda hoje, fãs de todo o mundo ainda sonham com uma terceira temporada e outros deslocam-se aos cenários reais onde decorreram as gravações para reviver um pouco da magia.



A produção de Twin Peaks, à semelhança do argumento, está cheia de detalhes curiosos, os quais espelham o método de trabalho nada convencional de David Lynch. Ray Wise, que inicialmente fora contratado para o papel de xerife Harry S. Truman (papel que, no final, coube a Michael Ontkean), acabou por interpretar Leland Palmer, o pai de Laura. A personagem de Ray Wise, pouco importante no início da trama, ganhou importância na segunda temporada, quando surgem indícios que o patriarca da família Palmer teria violado e assassinado a filha. Sheryl Lee, a intérprete de Laure Palmer, também beneficiou das facilidade com que David Lynch muda o rumo dos argumentos. O realizador, que apreciou o trabalho da actriz, criou uma nova personagem para Lee, Madeleine Fergunson, a prima de Laura Palmer, para que ela tivesse uma presença prolongada na série. Já o aparecimento de Bob, a figura simbólica que representa o lado negro de Leland Palmer, foi completamente incidental. As gravações de Twin Peaks decorriam quando Lynch conheceu Frank Silva, um elemento da equipa técnica. Abordado pelo realizador, Silva aceitou o papel. À semelhança de Bob, também o agente Andy Brennan surgiu de improviso. Harry Goaz, que desempenha o papel do tímido e solícito polícia, era um aspirante a actor, e ganhava a vida como motorista. A sorte bateu-lhe à porta quando conduziu David Lynch e o impressionou com o seu altruísmo e simpatia.



Entretanto, a segunda temporada de Twin Peaks seguiu o caminho típico dos trabalhos de Lynch, tornando-se cada vez mais estranha. Os admiradores do cineasta acompanharam a mudança sem estranhar. Uma parte considerável do público, porém perdeu o fio à meada e as audiências caíram. De entre as cenas mais bizarras destacam-se as que têm como pano de fundo a Sala Vermelha, um produto dos sonhos de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), onde este é confrontado pelo anão identificado como ‘The Man From Another Place’ (‘O Homem de Outro Lugar’). As deixas do actor que o interpreta, Michael Anderson, não são, como aparentam, totalmente desprovidas de sentido. Para criar a estranha sonoridade, Anderson gravou as suas falas lidas de trás para a frente e, depois, bastou tocar a fita ao contrário para conseguir o efeito.



As audiências ditaram o final de Twin Peaks e a terceira temporada nunca se concretizou...

Miguel Ângelo Ribeiro