quarta-feira, 24 de julho de 2013

The Raven - Legacy of a Master Tief (PC)


The Raven - Legacy of a Master Thief, cujo primeiro capítulo foi lançado ontem, 23 de Julho, é um jogo de aventura em três partes que pretende recuperar a tradição dos clássicos do género, enquanto homenageia as grandes histórias de mistério, com particular ênfase sobre os romances de Agatha Christie. Antes de entrar numa descrição mais detalhada, posso adiantar que, na minha opinião, o jogo conseguiu concretizar todos os seus objectivos:  Tem personagens interessantes, reminiscentes de figuras criadas pela famosa escritora britânica - sendo uma delas uma versão da própria Agatha Christie -, os puzzles são suficientemente complexos, mas sempre coerentes, algo que se tem perdido ao longo dos anos desde os clássicos da Sierra e LucasArts, os gráficos estão perfeitos para o género e a interpretação vocal bastante satisfatória. O enredo, sendo uma hommage, não é realmente original, embora tenha a particularidade inesperada de se desenrolar nos anos 60.


Quanto à história, o jogo da King Art Games - autores de The Book of Unwritten Tales - começa em 1964, quando um de dois lendários rubis, Eyes of the Sphynx, é roubado do Museu Britânico. Uma pena deixada no local do crime indicia tratar-se do regresso de um "gentleman thief", denominado The Raven que, em 1960, roubou várias peças valiosíssimas em vários locais da Europa até ter sido alvejado e, presumivelmente, morto pelo inspector Nicolas Legrand. Agora, após este novo assalto, Legrand desconfia que poderá ter morto o homem errado e é encarregue de montar uma armadilha para o novo (ou velho) Raven. A opção de se passar nos anos 60 foi explicada por um dos criadores com a necessidade de incluir alguma (mas não muita) tecnologia na investigação policial. A época não destrói a homenagem às obras de Christie sobretudo porque os personagens são adaptados. A título de exemplo, a sósia da escritora já é bastante idosa e está reformada da carreira literária.



Depois de uma cutscene que dá o mote, a acção propriamente dita tem início a bordo do Expresso do Oriente, onde descobrimos que o nosso personagem não é, como seria de esperar, o ilustre Legrand, mas sim Anton Jakob Zellner, um polícia suíço, idoso, obeso e com problemas cardíacos (fisicamente parecido com Poirot, mas as semelhanças ficam-se por aí) que foi encarregue de auxiliar o inspector da Interpol. Rapidamente descobrimos que Legrand não tem muito interesse em contar com o apoio de Zellner pois com ele viaja o polícia britânico Robert Oliver, que se encontrava no Museu Britânico aquando do assalto. Perante a insistência de Zellner, um homem com grande sentido de dever e que ainda acalente o desejo de resolver um caso importante antes da reforma, Nicolas Legrand assume que transporta o segundo rubi no comboio numa tentativa de atrair o ladrão e capturá-lo. Para se livrar do insistente Zellner, o inspector dá-lhe autorização para interrogar os passageiros em busca de informações que possam ser úteis.



Enquanto procura impressionar Legrand, Jakob Zellner estabelece contacto com os passageiros, entre eles a aristocrata que financiou a exposição Eyes of the Sphynx, o estranho mordomo da baronesa, um jovem violinista que vive mais de esquemas ilegais do que da música, a célebre escritora de policiais inspirada em Agathe Christie, e da qual Zellner é um devoto fã, a tímida secretária da escritora, um enigmático médico alemão e um académico inglês ao serviço do Museu Britânico. Durante um trecho atribulado do Expresso do Oriente, todos estes personagens vão revelar alguns segredos, por vezes de forma voluntária, outras nem tanto, e ajudar ou dificultar o trabalho de Zellner. O primeiro capítulo não fica por aqui, mas para evitar spoilers vou apenas adiantar que, após um incidente a bordo do Expresso do Oriente, fica comprovada a existência de um copycat - teoria de Zellner, devido ao modus operandi violento do actual Raven, que contrasta com a postura cavalheiresca do ladrão que quatro anos antes deixou a polícia do Velho Continente em polvorosa -, ou o regresso do Raven original, teoria que Legrand defende. Depois do Expresso do Oriente, a aventura prossegue num cruzeiro para o Cairo. Segundo foi previamente anunciado, num dos futuros capítulos poderemos jogar o próprio Raven e descobrir o outro lado deste mistério.



The Raven - Legacy of a Master Thief não representa, seguramente, uma revolução nos jogos de aventura como foi The Walking Dead, ds Telltale Games, e como (espera-se) será a próxima entrada na franchise de Sherlock Holmes da The Adventure Company. Neste caso trata-se mais de um regresso a um passado em que os mistérios eram realmente mistérios e os puzzles serviam o seu propósito, ao invés de serem apenas tarefas absurdas com o propósito de complicar a vida do jogador e prolongar, da pior forma possível, o tempo de jogo. De notar que quem escreve este texto é, usualmente, contra a nostalgia nos videojogos, particularmente no género RPG. Em relação a este, pode especular-se que a geração dos que são hoje jovens adultos confundiu a sua saudade dos jogos que lhe marcaram a infância com um verdadeiro regresso às origens do role playing game para computador e ficou refém de um fascínio pela reprodução, normalmente "artesanal", via Kickstarter, de artefactos que nunca foram verdadeiros role playing games, mas sim jogos de estratégia com diálogos. Esqueceram-se, então, do pormenor crucial de que os jogos foram criados dessa forma porque era o que a tecnologia da altura permitia, mas não entremos por aí... No campo da aventura a "evolução" tem sido diferente, possivelmente para agradar a um público apreciador de jogos online, sem narrativa, nem critérios de qualidade, que não encara essas características como defeitos, pois deseja apenas matar o tempo a desvendar puzzles.


Em The Raven a acção é célere, os diálogos são interessantes, a história não é completamente linear, apesar de ser enquadrada em espaços fechados, há algumas (não muitas) escolhas com repercussões no desenrolar da narrativa e, quem aprecia um bom murder mystery, não poderá ficar indiferente a esta homenagem muito bem executada. Acima de tudo, a combinação de objectos, coisa que normalmente me irrita profundamente em aventuras point-and-click, existe, neste jogo, com um propósito definido e coeso. Sendo assim, eu recomendo.

Miguel Ângelo Ribeiro